10 de jul. de 2023

I.A. não é inteligência e sim marketing para explorar trabalho humano, diz Nicolelis


Neurocientista diz que a mente humana resulta de milhões de anos de evolução: "quero ver ChatGPT sobreviver a um jogo do Palmeiras".
8.jul.2023 às 8h00
Pedro S. Teixeira

O ChatGPT funciona como uma ferramenta de marketing por gerar desigualdades na relação entre empregador e força de trabalho, diz o neurocientista Miguel Nicolelis. Para ele, a inteligência é o resultado de milhões de anos de evolução, que não podem ser computados em código binário.

Nicolelis trabalha há 30 anos com redes neurais, mecanismo por trás dos atuais algoritmos de aprendizado de máquina. Referência em interfaces entre cérebro e máquina, atuou no desenvolvimento de neuropróteses capazes de restaurar movimentos do corpo. Durante a abertura da Copa de 2014, na capital paulista, um cadeirante chutou a bola ao gol com o auxílio de um equipamento desenvolvido por ele.

Miguel Nicolelis pesquisou exoesqueletos que ajudam pacientes, antes em cadeiras de rodas, a dar primeiros passos. Nicolelis é um homem branco, veste camisa azul, sob suéter preto.Miguel Nicolelis pesquisou exoesqueletos que ajudam pacientes, antes em cadeiras de rodas, a dar primeiros passos. Nicolelis é um homem branco, veste camisa azul, sob suéter preto.

Nicolelis afirma à Folha que é absurdo dizer que os modelos de linguagem como o ChatGPT são dez vezes mais inteligentes que um ser humano por escreverem de forma veloz ou se comunicarem em diversos idiomas, como fez Geoffrey Hinton, cientista da computação que inventou as redes neurais e foi sócio e conselheiro do Google por mais de uma década. "A tartaruga é extremamente inteligente, só é lenta."

O sr. criticou o escritor Yuval Harari. Por quê?
Ele mistura coisas de outras áreas sem ter conhecimento profundo. No Sapiens, ele mistura as referências e interpreta os nossos resultados de uma maneira que não tem absolutamente nada a ver com o que fizemos. É um trabalho que gastei 30 anos da minha vida. Quando ele fala que no futuro vamos colocar essa coisa chamada interface cérebro-cérebro, que era algo experimental que fiz entre ratos, fiz entre macacos e fizemos entre seres humanos, para reabilitação. Mas não é que eu vou trocar meus sentimentos com outras pessoas. É uma troca de comandos motores, coisas apropriadas para reduzir a lógica digital. Ele fez uma interpretação disso como se eu estivesse lendo a mente de alguém, o que nunca vai acontecer. Ele fala: 'nós vamos viver até os 200 anos', 'vamos acabar com o envelhecimento'. Tudo isso é fantasia.

E sobre o que Harari diz da inteligência artificial?
Ele vive de lacração em lacração. Ele escreveu que a inteligência artificial sequestrou o sistema; ela não sequestrou nada. A espécie humana está sequestrando sua própria evolução.

Por trás da inteligência artificial, existem exércitos de pessoas que anotam dados.
E tem exércitos de evangelistas. Nunca gostei dessa palavra, porque ela denota que a vasta maioria dos movimentos humanos viraram religiões. Tudo parece religião. Do ponto de vista científico, digo isso há anos, e agora Noam Chomsky usa a mesma frase, a inteligência artificial não é nem inteligente nem artificial. Não é artificial porque é criada por nós, é natural. E não é inteligente porque a inteligência é uma propriedade emergente de organismos interagindo com o ambiente e com outros organismos. É um produto do processo darwiniano de seleção natural. O algoritmo pode andar e fazer coisas, mas não são inteligentes por definição. Se estivesse vivo, Charles Darwin teria um infarto com isso

Chamar de aprendizado de máquina é melhor?
Aprendizado de máquina, deep learning, machine learning, são grandes nomes que usam palavras que nós nos acostumamos coloquialmente a usar, relacionadas ao cérebro humano ou de qualquer animal, para definir coisas que nós fazemos com lógica binária. A inteligência humana não é binária. Por isso, é um nome impróprio.

O criador das redes neurais Geoffrey Hinton diz que ele tenta simular a estrutura do neurônio, para pensar esses algoritmos.
Ele comenta um monte de absurdo também. Ele falou que a inteligência artificial já é dez vezes superior à inteligência humana, o que é um absurdo. Nós temos esses marqueteiros dessas áreas de tecnologia que alegam coisas que parecem verdade. Mas eles não têm a prova.Ele trabalha com resultados. Ele fala da velocidade com a qual ele entrega respostas, vários idiomas. A tartaruga é extremamente inteligente. Ela é lenta. Mas o que nós estamos falando é tentar usar a linguagem do mercado para definir o que a vida faz. O mercado quer coisas rápidas, eficientes, com lucro infinito e gasto zero. A inteligência não tem esse compromisso. A inteligência do organismo tem o compromisso de fazê-lo sobreviver o máximo possível em um ambiente em contínua mudança. Só porque um computador joga xadrez mais rápido e ganha de um campeão mundial, não indica que ele é inteligente. Ele só é mais eficiente, porque o xadrez é um jogo com regras predeterminadas. Esse computador não consegue sobreviver no estádio do Palmeiras em uma noite de jogo, não entende os motivos de uma briga, porque não tem a capacidade de generalizar sua inteligência.

A pesquisadora do instituto Open Philantropy, Ajeya Cotra, estimou que, no atual modelo de sociedade, a mente humana corre o risco de estar obsoleta até 2037 em termos de produção para o mercado de trabalho. Isso faz sentido?
Depende do que você chama de produção e do que chama de obsolescência. Existe um limite da lógica digital. Acabei de ler um livro de um dos melhores intelectuais da área de IA, o Michael Wildridge, da Universidade de Oxford. Saiu em 2021. No livro ele fala: sabemos que existe um limite determinado por fenômenos não computáveis, nos quais não há um algoritmo, não há uma fórmula matemática solucionável com um programa. Só que ele põe dois parágrafos sobre a coisa mais importante do livro, e comenta que os pesquisadores não prestam muita atenção nisso porque têm muita coisa para fazer. Mas a mente humana é repleta de fenômenos não computáveis: inteligência, intuição, criatividade, senso estético, definições de beleza, de criatividade, tudo isso é não computável. Qual é a fórmula para a beleza?

Uma jovem publicou no Twitter que seu tio foi acusado de plágio porque um professor pegou um trecho do trabalho dele e perguntou se havia sido feito pelo ChatGPT para o ChatGPT. A plataforma não é feita para reconhecer se um texto foi feito por inteligência artificial e sempre responde que é o autor de qualquer texto.
De certa maneira, o ChatGPT é um grande plagiador, porque pega o material feito por um monte de gente, mistura e gera algo que chama de produto novo, mas, na realidade, é em grande parte influenciado pelo produto intelectual de milhares e milhares de seres humanos. Para o sistema capitalista atual, moderno, a inteligência artificial é a grande ferramenta de marketing, porque gera uma total desigualdade no relacionamento com a força de trabalho.

Um patrão pode dizer: tenho um aplicativo de inteligência artificial, se o trabalhador não aceitar o salário que estou disposto a pagar, que é 10% do que ganha hoje, demito e uso o aplicativo. Existe toda uma ideologia de substituição do trabalho humano, que não pode ser feita 100%, não há como. Dá para dizer que ganha espaço na sociedade um pensamento mais utilitarista?
Esse é o problema, isso não tem nada a ver com a máquina. O que está se fazendo é forçar a biologia humana a seguir regras de mercado. As regras de mercado não são divinas, elas são abstrações criadas pela mente humana. O que elas produziram na história da humanidade? Uma estrondosa desigualdade de distribuição de renda. Nós temos gente gastando dinheiro para mergulhar para ver o Titanic explodindo no meio do oceano. Se alguém andar da avenida Paulista até aqui, como eu fiz, vê dezenas de milhares de pessoas morrendo de fome nas ruas. Tudo isso está sendo ignorado porque esses sistemas são convenientes. Eles aumentam a nossa produtividade e nosso alcance como ser humano.

O sr. está mais alinhado com o pensamento de que hoje esses modelos de linguagem são mais como papagaios estatísticos?
Totalmente. Deep learning nada mais é do que redes neurais com múltiplas camadas, mais camadas, mais neurônios e mais conexões entre essas camadas. O cérebro faz isso também. Todavia, é impossível simular os mecanismos biológicos que o cérebro usa para tomar essa decisão.

O cérebro gasta muito menos energia do que supercomputadores de IA para entregar o mesmo processamento.
É um processo de otimização de milhões de anos. Não é à toa que nós descemos das árvores, levou 4 milhões de anos para sairmos andando. É uma coisa muito mais elaborada: 20% da energia que seu corpo produz vai para cá [aponta para a cabeça]. A energia do cérebro dá para acender uma lâmpada, mais ou menos. É um troço extremamente otimizado que sofreu modificações brutais desde que a vida apareceu na Terra. E não é computável. O próprio Alan Turing sabia disso, depois de propor sua tese, disse: há certos problemas que essa minha máquina teórica, que já virou máquina de Turing e gerou os computadores, não vai conseguir resolver. E quando eu tiver esse impasse, só tem uma solução. Tenho que chamar um oráculo para tomar uma decisão. O oráculo é um ser humano.

Mas dentro dessa lógica de concorrência entre máquina e ser humano, o senhor concorda com os riscos para a espécie aventados por pesquisadores e gente da indústria de tecnologia?
Os riscos são tremendos. Essas ferramentas têm de ser usadas sob a supervisão humana. Na programação de um sistema de IA, a pessoa pede algo, mas pode não considerar que os meios para alcançar o objetivo são indesejados. É o que ocorre com o computador HAL do filme "2001 - Uma Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick. A missão dele era chegar com a tripulação a um local. Só esqueceram de falar que HAL não podia matar a tripulação. Esqueceram os cenários em que a missão seria completa, mas não sobraria gente para ver. Quando alguém delega para algo fazer uma missão em seu nome, não vai ser possível oferecer para essa coisa todas as restrições que temos de imediato por causa da evolução.

Esses mecanismos podem ser úteis, em termos de pesquisa, como são seus estudos em neurociência?
Uso redes neurais para interpretar padrões de atividade neural reais desde os anos 1990. Não as mesmas redes de hoje, mas mais simples. É um método estatístico de reconhecimento padrão.Não concordo com transformar uma ferramenta estatística em um novo Deus e construir embaixo dele toda uma religião, como está acontecendo. Eu chamo a igreja da tecnologia.

Miguel Nicolelis, 62
Chefiou, o Centro de Neuroengenharia da Universidade de Duke, antes de se aposentar como professor emérito em 2021. Médico, ele é referência no estudo da interface entre cérebro e máquina e coordenou comitê científico do Consórcio Nordeste. Foi o primeiro brasileiro a publicar um artigo na capa da revista científica Science.

14 de fev. de 2012

A vida depois da vida

da revista veja 15/02/2012
Quando o pastor batista Don Pipper dirigia seu Ford vermelho sobre a ponte, a carreta pegou seu carro em cheio. O volante esmagou o seu peito, o resto desabou, o painel caiu-lhe sobre as pernas. Havia ferro retorcido, estilhaços de vidro e sangue por todos os lados. Os para-médicos chegaram logo, tomaram o seu pulso, mas não havia mais o que fazer, além de cobrir o corpo sem vida com uma lona. Cerca de uma hora e meia depois, quando alguém rezara fervorosamente ao lado do seu corpo ainda entalado nas ferragens do carro, Don Pepper simplesmente voltou à vida . Após 120 dias no hospital, 34 cirurgias e treze meses de cama em casa ele contou sua experiência num best-seller que já vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Nos noventa  minutos que foi dado como morto, Pipper garante que estava no céu. Uma enlevada multidão acolheu-o diante de um portão cintilante com sorriso e palmas e beijos e abraços. Havia luzes radiantes e belíssimos sons celestiais, inclusive o rufar de asas dos anjos. Sim, Pepe garante que há um lugar para onde vamos depois da morte. Que a morte não é o fim.

Nos 50.000 anos da história humana, jamais surgiu uma prova cabal de que a vida não termina com a  morte. No entanto, há 50.000 anos a humanidade, em qualquer tempo ou cultura, acredita que a morte não é o fim da linha. Uma pesquisa mostra que mais de 70% dos americanos, em todas as faixas etárias, acreditam na vida após a morte. Um levantamento realizado em 23 países (o Brasil entre eles) identificou que 51% acreditam em alguma forma de vida pós-morte -  vida no paraíso ou no inferno, através da reencarnação ou como energia cósmica. No caso dos brasileiros, o porcentual de crédulos chega a 72%. A idéia de que os mortos tem uma segunda vida perdeu aceitação generalizada, mas ainda permeia o imaginário ocidental; ela está nas conversas, piadas, filmes, livros. E enorme o sucesso de seriados de vampiro, confirmando o  interesse num outro universo. Entre ficção e não-ficção, o site da Amazon oferece mais de 3.000 títulos em inglês sobre a vida do outro lado. O tema está em todos os lugares, em especial nas igrejas e templos.  “O Ocidente vive uma fascinação com avida depois da morte como não se via desde o auge do espiritismo, entre 1850 e 1870”, escreveu o holandês Jan N. Bremmer, autor de provocativo livro sobre as ideias de além-túmulo.

Dois fatores contribuem para a crescente popularidade do assunto. O terrorismo islâmico é um deles. A principal motivação dos extremistas muçulmanos para sacrificar a vida em explosões suicidas é a recompensa das 72 virgens no paraíso. Os atentados de 2001 mudaram a visão americana do mundo e da atualidade recolocaram a religião no centro da discussão pública. Em resposta ao terror islâmico, o fundamentalismo cristão também reaviveu, para seu próprio conforto, a consoladora "ideia" de que os mortos renascem no além. O outro fator está nas proliferação de pesquisas. A ciência nunca se interessou tanto na investigação da vida após-morte como atualmente. As chamadas “experiências de quase morte”, em que uma pessoa clinicamente morta revive, como ocorreu com o pastor Piper, são o alvo dos cientistas.  Antes, esses estudos estavam confinados aos raros departarnentos de parapsicologia nas universidades americanas. Agora, estão nas áreas de neurologia, psicologia e genética. Um dos aspectos de estudo é a intrigante persistência da ideia de vida pós-morte, que resiste aos séculos, as culturas, a tecnologia.  





O biólogo Dean-Hamer, integrante da estirpe de cientistas que escrevem livros e viram pop stars,  afirma que temos uma predisposição genética para  a espiritualidade. Ao pesquisar 200 pessoas, incluindo gêmeos, Hamer descobriu uma coincidência:   os que tinham sentimentos religiosos compartilhavam  um gene, o VMAT2,  responsável pelo e controle do fluxo das substâncias químicas que guiam o humor. Em o “Gene de Deus”, o biólogo é categôrico: “A espiritualidade é uma das nossas heranças mais básicas. É um instinto”. O traço genético não seria um efeito colateral da nossa história evolucionária, mas uma vantagem adaptativa. A espiritualidade, segundo Hamer, nos dotou de um otimismo inato que, no plano psicológico, nos conforta e nos estimula a procriar, ajudando a preservar a espécie. O neurocientista Andrew Newberg, da Universidade Thomas Jefferson, monitorou o cérebro de freiras e monges enquanto rezavam ou meditavam e identificou o circuito neural que é ativado pela imersão religiosa. A exemplo do Hamer, a pesquisa de Newberg sugere que a espiritualidade - fonte mais fértil das crenças no pós-vida - pode ter uma base biológica.

O psicólogo canadense Bruce Hood, da Universidade de Bristol, acredita que chegamos ao mundo com uma inclinaçäo não para a espiritualidade, mas para o pensamento sobrenatural. “Deus pode requerer a crença no sobrenatural, mas as crenças no sobrenatural não requerem Deus”, diz.  De acordo com Hood, temos um “supersentido”, um instinto para acreditar em coisas invisíveis, imensuráveis, desconhecidas - como a existência de uma entidade divina, poderes da cartomante, a coluna de horóscopo dos jomais, a telepatia, a vida depois da morte. Por isso, as crianças têm tamanha facilidade para acreditar em Super-Homem, bruxas voadoras ou sapos falantes, que tão claramente violam as leis naturais. Dependendo do ambiente em que crescemos - se mais ou menos místico -, o pensamento mágico vai sendo substituído por outras crenças ou pelo raciocínio científico. Em Supersentido: por que Acreditamos no Inacreditável, Hood ó generoso com os que tem fé, mas chega a uma conclusão severa: “O pensamento sobrenatural no adulto é o resíduo dos erros conceituais da infância que não foram devidamente eliminados”.

Ainda há controvérsias sobre se somos programados para a vida espiritual ou não, mas a ciência chegou a um consenso: o cérebro foi desenhado pelas forças evolutivas para extrair sentido do mundo que nos rodeia. Ele está permanentemente procurando padrões, modelos, estruturas, tentando encontrar ordem e lógica em tudo o que nos cerca. E esse imperativo biológico que nos leva a enxergar figuras nas nuvens. Se ouvimos palavras soltas, sem sentido, como “narina raspar às vezes é linda”, o cérebro logo organiza esses sons em algo inteligível, como “Marina Gaspar Menezes é linda”. Em certo sentido, lidamos com um paradoxo fascinante: o cérebro é programado para ver o mundo como ele não é - ordenado e lógico.

O universo é um caos, com escuridões intermináveis, explosões estelares, corpos celestes se chocando em velocidades alucinantes. Tudo é aleatório e casual. Mas o cérebro, por força de sua natureza, precisa encontrar uma ordem. Nessa tarefa, recorre à ciência ou ao sobrenatural, e pode ser facilmente enganado. Uma experiência recente de neurologistas do Instituto Karolinska, em Estocohno, mostrou que o cérebro pode ser rapidamente iludido de que temos três mãos. No início, ele entra em conflito. Em seguida, absorve a informação e passa a sentir como se a existência das três mãos fosse fisicamente real.

O cérebro humano é uma maquina excepcionalmente potente e complexa mas, ao contrário do senso comum, não é perfeita, muito menos moderna. Na verdade, seu desenho é tão antigo que está em descompasso com o progresso tecnológico que atingimos. Hoje, é desnecessário um cérebro que se sente mortalmente ameaçado por cobras ou aranhas. Isso era providencial no tempo das cavernas. Agora, seria mais útil um cérebro aterrorizado, digamos, com o choque elétrico. Afinal, em casa corremos mais risco de levar um choque do que uma picada de cobra. Mas o cérebro não teve tempo em termos evolucionários para se adaptar a modernidade. David Lewis-Williams, em seu The Mind in the Cave (A Mente nas Cavernas), resumiu com brilhantismo essa dicotomia: “A essência do ser humano e uma desconfortável dualidade entre a tecnologia “racional” e a crença irracional. Ainda somos uma espécie em transição”. Por isso, somos capazes, a um só tempo, de ir a Lua e crer em fantasmas, ou usar a mais formidável tecnologia para falar de universos paralelos em filmes fascinantes como Matrix, a trilogia O Senhor das Anéis ou A Origem, estrelado por Leonardo Di Caprio. O radiologista e oncologista Jeffrey Long escreveu Evidence of the Afierlife (Evidências da Vida Após a Morte), catalogando a historia de 1600 pessoas que passaram por uma “experiência de quase morte”, que os estudiosos conhecem pela sigla EQM. Long tem um site com 2.500 depoimentos e 40.000 visitantes por mês. Os estudiosos de EQM têm associação internacional, publicam um jornal trimestral e organizaram um congresso internacional na França em 2006. Os estudos mostram que os ressuscitados tem relatos semelhantes. Contam que flutuaram sobre o próprio corpo, entraram num túnel, viram a vida inteira passar diante dos olhos e encontraram parentes e amigos mortos. (Consta que Elizabeth Taylor, numa EQM, encontrou-se com Mike Todd. “Ele me deu um empurrão e me jogou de volta para a vida”, disse ela. Mas não esclareceu se o empurrão veio em benefício dele ou dela.)

A neurologia já explicou boa parte do fenômeno das EQMs. O estímulo de uma região ido cerebro chamada giro angular direito altera a percepção espacial, e com isso temos a sensação de abandonar o prório corpo. O giro angular esquerdo é a região que, estimulada por impulsos elétricos, produz a visão de vultos. A falta de oxigênio, comum nas paradas cardíacas, afeta primeiro as células da visão periférica, e a visão central passa a predominar - disso resulta a imagem do túnel. Como se sabe desde a era do psicodelismo dos anos 60 e do festival de Woodstock, as drogas produzem todo tipo de alucinação. O psiquiatra inglês Karl Jausen fez entrevistas com usuários de drogas e recolheu depoimentos semelhantes aos relatos de quem viveu uma EQM. 0 cinema diante dos olhos resulta da hiperatividade de algumas áreas do cérebro que, empenhadas em compensar a falta de oxigênio, acabam produzindo uma alucinação que se parece com uma retropectiva da vida.

O neurologista Kevin Nelson, liderando uma equipe da Universidade de Kentucky, descobriu recentemente que a expêriencia de ver-se fora do corpo fisico pode ser produto de um transtomo do sono profundo. Normalmente, passamos do sono profundo para o estado de vigília sem escalas. Mas algumas pessoas tem um distúrbio em que os dois estados de consciência - adormecido e acordado - se confundem. Numa simplificação, é como se a mente acordasse antes do corpo, que segue paralisado em sono profundo, enquanto a mente faz um voo alucinatório fora do corpo. Como o transtorno, é vinculado ao tronco cerebral, isso pode ocorrer mesmo que a parte superior do cérebro já tenha morrido.

 Tal como a concebemos hoje, a ideia da vida após a morte é um legado do cristianismo, mas elevou séculos até se consolidar num conjunto doutrinário. A própria ideia de purgatório - aquele estágio intermediário onde as almas são julgadas,  - ou purgadas - só ganhou clareza no século XII  e atingiu seu apogeu com a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Admirador de Dante, Michelangelo se inspirou na Divina Comédia para pintar o teto da Capela Sistina. Botticelli fez  de desenhos a partir dos versos em terza rima do poeta. A influência de Dante, incontrastável no mundo ocidental, atravessou os séculos e chegou até nos na literatura de James Joyce, na dramaturgia de Samuel Beckett, na poesia de Seamus Heaney, o Nobel de 1995.

As religiões são grandes criadoras da idéia do paraíso. “As religiões acreditam na vida após a morte porque, para elas, o mundo foi feito por um Deus que não pretende ver Sua criação reduzida a nada, diz a professora Carol Zaleski, do Smith College, aclamada autora sobre o assunto. O estudo das visões do paraíso elaboradas pelas religiões equivale a uma viagem pelo mundo das circunstâncias terrenas. As tribos que escreveram a Bíblia e o Corão habitavam uma região desértica, e não por acaso o paraiso em fartura de rios - de leite, mel, vinho e agua mesmo. No Egito antigo, só depois que o paraiso deixou de ser privilégio dos faraós é que se criou-se um tribunal dos mortos, que são julgados na presenga da bela Maat, a deusa da verdade, da ordem e da justiça, aquela que tem uma longa pena de avestruz na cabeça cuja, ponta graciosamente verga sob o próprio peso. Na Judeia, o céu deixou de ser a morada exclusiva de Deus, e passou a ser destino dos mortos, quando se espalhou furiosamente  o tremor de que o mundo ia acabar.  Nos EUA,  a ideia de paraiso chegou com os primeiros puritanos. O céu era a austero.O celebrado evangelista americano Billy Graham, 93 anos, hoje o define como o lugar onde “vamos direigir sobre ruas de ouro num Cadillac amarelo conversível".

Somos a única espécie com consciência da própria existência, mas o preço  que pagamos por essa dádiva é a ansiedade de nos sabermos mortais - a morte, esse mistério que Hamlet chamoo de “país desconhecido”, de onde ninguém jamais voltou. Talvez a ansiedade explique por que o além é  paradisíaco. O psicólogo Jeff  Greenberg, da Universidade de Arizona criou a teoria Segundo a - qual a ideia da imortalidade ameniza essa ansiedade que, do contrário, sem atenuantes, seria incapacitante. Batizada de “teoria do manejo do terror”, sua tese sugere que nossos valores e crenças foram desenvolvidos para nos proteger do medo da morte - de  modo que, diante da ameaça da morte, tendemos a nos apegar a  eles. Num teste, Greenberge colegas pediram que 22 juizes municipais que definissem o valor da fiança num caso banal (e fictício) de prostituição. Antes, convidaram metade dos juizes a responder um questionarío cujo objetivo era so fazê-los lembrar da inevitabilidade da própria morte. A outra metade não recebendo questionário. A diferença nos valores da é espantosa. Os juízes expostos a lembrança da morte estipularam a fiança de 450 dólares. Ou seja: quando lembrados que são mortos, juízes foram muito mais severos com uma conduta - a prostituição - ofensiva à sua moral. Em outras palavras, nossos valores e crenças são uma, promessa de imortalidade.  A ironia final é que a imortalidade, em vez de nos preservar para a eternidade, nos transformaria em algo que nunca fomos. O professor de filosofia da Universidade de Cambridge Stephen Cave lançará  em breve um livro sobre imortalidade no qual defende o argumento de que, se um milagre nos desse vida eterna, a civilização, tal qual a conhecemos, estaria irremediavelmente destruída. “Grande parte do que fazemos e com base na esperança de vencer a morte. O que faríamos se não fosse mais preciso rezar, criar arte nem fazer pesquisas científicas'?”, diz Cave. “Além disso, o valor de uma coisa é definido por sua escassez. Valorizamos o nosso tempo porque ele e limitado.” Sem ter o que fazer, mas com  tempo infinito  fazê-lo, seríamos outros. Cave conclui: "As consequências da eternidade seriam ruins para o individuo e um desastre para a civilização”. Mas nada disso matam a esperança - a última a morrer, afinal - de que a morte seja, quem sabe, apenas um novo começo disfarçado.

3 de out. de 2010

"Religião é componente genético"

Nicholas Wade, repórter especializado em ciência do New York Times, juntou religião e as ideias evolutivas de Darwin - duas coisas aparentemente opostas. Em seu livro: The Faith Instinct (O Instinto de Fé, sem edição no Brasil), defende que a religiosidade é um comportamento universal humano, presente em todas as sociedades, e provavelmente moldada pela seleção natural em milhares de anos. Para ele, todos nós temos um instinto religioso, que nos faz querer ter fé.

>> Pesquisadoras contestam evolucionismo de Darwin
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A relação do repórter com a religiosidade começou no Eton College, no condado inglês de Buckingham. Fundada pelo rei da Inglaterra Henrique VI, a escola manteve seu currículo quase intacto ao longo dos mais de 500 anos que separam sua fundação, em 1440, do ingresso de Nicholas Wade, durante o colegial. Devido à grade secular, ele aprendeu latim e grego, estudou diversas religiões e frequentava a igreja duas vezes ao dia, exceto aos domingos. “Eu acho que essa familiaridade com os hinos e com a liturgia da Igreja da Inglaterra me fez apreciar a religião e me ajudou a entender porque ela tem sido uma força tão poderosa ao longo da história”, diz Wade.

Em seu livro, ele reúne citações de antropólogos, sociólogos, economistas, historiadores, psicólogos, teólogos para mostrar ao mundo com quanto de fé se constrói um homem. Nicholas Wade conversou conosco sobre seu livro - que é de ciência, segundo ele. “Enquanto a base genética para o comportamento religioso existir, as pessoas estarão inclinadas em relação à religião”, ele destaca. Confira a entrevista

Seu livro é um livro religioso ou um livro de ciência?
Olho para a religião a partir da perspectiva da ciência e, mais especificamente, da teoria da evolução. Portanto, é um livro de ciência - um livro de ciência sobre a religião.

Há quanto tempo o homem é religioso?
Toda sociedade humana conhecida tem alguma forma de religião. Desde que a religião é como um comportamento distintivo, é altamente improvável que cada sociedade tenha desenvolvido sua religião de forma independente. Religião deve ter sido um dos comportamentos que as sociedades humanas herdaram da população ancestral antes que estas se dispersassem por todo o globo. Como a dispersão da população humana moderna ocorreu há cerca de 50 mil anos, a religião deve existir há pelo menos esse tempo.

E quando ela teve início?
Ninguém sabe. Os rituais religiosos, com base em danças e cantos sem palavras, poderiam ter existido antes mesmo da linguagem. Mas a data em que a linguagem evoluiu também é desconhecida, só se sabe que foi depois de nos separarmos dos chimpanzés, há 5 milhões de anos, e antes da dispersão da população humana moderna, há 50 mil anos.

As religiões podem estar conectadas em um ponto de origem comum?
A população ancestral humana era muito pequena, houve um ponto em que não éramos mais de 5.000 pessoas. Pode ser que, nesta época, existisse uma religião única, a partir da qual todas as religiões de hoje são descendentes.

E por que isso é importante?
Novas religiões são formadas quando uma seita se separa de uma religião-mãe, e isso significa que, em um princípio, todas as religiões do mundo podem estar postas em uma única árvore de descendência. Isto é importante porque mostra a unidade da religião. Também nos ensina a olhar para as ligações históricas entre as religiões, que os autores religiosos podem ter tido o cuidado de ocultar. O Islã, por exemplo, pode ter raízes profundas no cristianismo, mas não é evidente.

A religiosidade trouxe benefícios à evolução dos seres humanos?
A religião resolveu, de forma muito eficiente, um problema difícil: como o nosso cérebro cresceu, cada indivíduo pode calcular melhor o seu próprio interesse e colocá-lo à frente do interesse do grupo. Mas uma sociedade em que todos colocam seu próprio interesse em primeiro plano se fragmentará brevemente.

A religião era uma maneira de dar coesão ao grupo. Com cânticos e rituais, fez com que todos se comprometessem com as regras, que foram criadas para promover comportamentos que ajudariam o grupo. Este compromisso não foi uma promessa ou uma intenção consciente. O compromisso criado pela religião é profundo, emocional, e muito mais difícil de ser ignorado. Grupos ligados à religião tiveram um forte tecido social, e seus membros estavam mais dispostos a defendê-los, mesmo a sacrificar suas próprias vidas na batalha por aquela religião.

E como a seleção natural está ligada a isso?
Os primeiros humanos eram bastante territoriais e agressivos. Nesta circunstância, a seleção natural teria favorecido os grupos mais religiosos, uma vez que tinham um grupo mais coeso, mais unido, e conseguiram prevalecer mais vezes contra os seus inimigos. Por fim, os genes para os comportamentos religiosos se tornaram universais na população humana inicial.

Essa teoria da seleção natural vem sido criticada por muitos cientistas
Os seres humanos são animais altamente sociais, e sua sociabilidade deve ter evoluído de alguma forma. Mas a sociabilidade - o que significa colocar os interesses da sociedade à frente do próprio interesse - constitui um sério desafio para a teoria evolutiva, uma vez que qualquer esforço para ajudar outras pessoas prejudica os esforços para resolver as próprias necessidades.

Os biólogos evolucionistas não estão de acordo com a resposta a esta questão, então eu não posso resolvê-la. Mas eu acho que a seleção natural pode favorecer grupos, assim como indivíduos. A ideia foi proposta inicialmente pelo próprio Darwin, embora seja impopular no momento. Alguns biólogos, como E. O. Wilson (vencedor de dois Pulitzer e apontado pela Time em 1995 como uma das 25 pessoas mais influentes dos Estados Unidos), já se manifestaram a favor da seleção de grupos e espero que ela se torne mais difundida no futuro.

Por que algumas religiões sobreviveram – e se tornaram dominantes – e outras não?
É difícil separar o que molda uma sociedade bem-sucedida do que molda uma religião bem-sucedida. É claro que as duas coisas estão ligadas. Uma religião que molda a sua sociedade com mais coesão se espalha melhor em detrimento de outras; em primeiro lugar dentro da sociedade e, em seguida, conquistando outras sociedades.
Dentro do Império Romano, por exemplo, o cristianismo mostrou-se mais atraente do que a religião romana tradicional. Uma vez adotado como religião oficial, o destino do cristianismo estava ligado ao do Império Romano. O Islã propagou-se no interior das áreas conquistadas pelos árabes. O judaísmo não é uma religião do Império, mas sobreviveu por causa da tenacidade com que seus seguidores a abraçaram. Os judeus, por sua vez, não teriam sobrevivido sem a sua religião.

Você acredita que o tempo mudou o tipo de religião que as pessoas precisam?
Sim, as religiões tradicionais parecem estar perdendo sua influência, certamente na Europa.

Por que então as pessoas ainda têm o desejo de acreditar em algo?
As pessoas ainda têm o desejo de acreditar porque um instinto para o comportamento religioso foi incorporado pela evolução no circuito neural do cérebro - este é o principal argumento do livro. Assim, mesmo as pessoas que não acreditam nas religiões tradicionais vão buscar a iluminação espiritual de outras formas.

Então, há um ponto de vista que diz que a religiosidade é boa, mesmo se Deus não existir?
Se você acredita que a religião é uma força coesa, como eu, então a religião foi certamente boa para a maioria das sociedades no passado e ainda pode ser importante hoje.

Finalmente, qual é o futuro da religião?
Enquanto a base genética para o comportamento religioso existir, as pessoas estarão inclinadas em relação à religião e as sociedades farão uso desta tendência. No entanto, a intensidade do comportamento religioso pode subir ou descer, dependendo de outras circunstâncias. Em países de estado de bem-estar social, como a Suécia, as pessoas podem não ver muita necessidade da religião, mas o instinto ainda está lá, e a religião pode se tornar mais popular no futuro. Fora da Europa, grande parte do mundo (incluindo os Estados Unidos) ainda é muito religiosa, e há pouca base para prever que, em breve, a religiosidade irá desaparecer.

29 de ago. de 2010

Impasses de um ateu

30/07/2009


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Leio num ônibus em Nova York propaganda de um grupo de ateístas: Você não precisa acreditar em Deus para ser uma pessoa ética.  Segue a linha daquele outro anúncio estampado em ônibus ingleses: Deus provavelmente não existe. Agora pare de se preocupar com isso e aproveite a sua vida. Estou aproveitando a minha, sentado à mesa de um bar numa calçada perto do Union Square, em Manhattan, saboreando uma cerveja mexicana.

As palavras no ônibus me fazem refletir sobre meu ateísmo. Minha primeira reação é de alegria e cumplicidade. Júbilo, até. Ateus são por natureza seres que pensam por si, respeitam a diversidade de pensamento e por isso preferem caminhar à margem do rebanho – para usar um termo muito ao gosto dos religiosos – e evitar pensamentos pré-fabricados. A ideia da individualidade, e a valorização dessa condição, fazem com que ateus raramente se reúnam em grupos, sociedades, partidos ou facções para defender a causa.

De uns tempos para cá, com o recrudescimento das posturas e ações de grupos religiosos, principalmente daqueles ligados ao terrorismo, muitos ateus começaram a se unir numa tentativa de fazer suas vozes ganhar peso político. Ateus, em geral, têm consciência de que o que os diferencia dos crentes é o simples fato de não acreditarem na existência de Deus. De resto, são idênticos aos crentes, acometidos dos mesmos medos, incertezas, dúvidas e inseguranças, assim como capazes dos mesmos sentimentos altruístas (compaixão, misericórdia) ou não (ira, inveja etc).

Eu, antes discreto, passei a afirmar ultimamente meu ateísmo com mais convicção. Dizeres como Deus seja louvado nas notas de real, campanhas ferrenhas contra a descriminalização do aborto, tentativas histéricas de proibir as pesquisas com células-tronco embrionárias, oposição obstinada aos direitos de homossexuais e a crescente infiltração do criacionismo – doutrinação religiosa disfarçada de pseudociência – em nossas escolas são só alguns dos pontos que me incomodam muito na atuação política de grupos ligados às religiões, e motivam minhas tentativas de – ao meu modo – questionar o que entendo como obstáculos à liberdade de expressão e direitos individuais, dois dos pilares de qualquer democracia que se preze.

Não me incomodo com as crenças religiosas e defendo o direito das pessoas exercerem seus rituais e cultos, contanto que não firam a liberdade alheia e não interfiram na educação, ciência e política, que devem – no meu entender – permanecer acima, ou ao largo,  dos credos.

Volto à Nova York e ao ônibus com os dizeres ateístas (e à minha cerveja mexicana): unindo-se em grupos e iniciando uma jihad contra as religiões os ateus não estarão caindo numa armadilha? Será mesmo uma boa estratégia agir da mesma forma que os religiosos radicais e assumir idêntica beligerância? Não estaríamos – desajeitadamente – usando as mesmas armas do inimigo? Precisamos mesmo considerar  religiosos como inimigos? Não faríamos melhor permanecendo fora do rebanho tentando iluminá-lo (e aqui não dou o sentido religioso à palavra iluminação) somente com o exemplo de nossos pensamentos, independência e liberdade?

O ateu, num impasse, imerso em dúvidas, frágil, impotente e solitário como qualquer outro ser humano, acaba de beber sua cerveja e sai flanando por Nova York sem encontrar respostas para as suas perguntas. Mas feliz por duvidar e não ter certezas.


Livro…

Este é o Meu Credo, de A a Z, de Carlos Fuentes, o grande escritor mexicano que já morou e volta e meia dá as caras por Nova York. Neste livro Fuentes apresenta crônicas e artigos autobiográficos que expressam pensamentos e sentimentos ora críticos, ora poéticos, mas sempre agudos e originais.
Por Tony Bellotto

“Deixem Jesus em paz”, pede Juca Kfouri

Na quinta-feira, 30 de julho, o jornalista Juca Kfouri também expressou seu incômodo em relação às mensagens religiosas dos atletas do país. Leia abaixo o texto de sua coluna no caderno "Esporte" da Folha de S.Paulo

JUCA KFOURI
Deixem Jesus em paz

Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro
MEU PAI, na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: "Você não tem cultura para se dizer ateu", sentenciou.

Confesso que fiquei meio sem entender. Até que, nem faz muito tempo, pude ler "Em que Creem os que Não Creem", uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.

De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.

Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso. Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.

Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.

Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.

E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.  Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.

E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.

Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes, como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial. Ora, há limites para tudo.

É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos...
Ora bolas!

Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.
Não mesmo é à toa que Deus prefere os ateus...

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15 de mai. de 2010

14 de mai. de 2010

Universo, uma história de erros

(Hélio Schwartsman - Folha)

Com algum atraso, comento o livro "Criação Imperfeita", do físico Marcelo Gleiser, lançado em março último. Gostei bastante. É uma obra de receita improvável: junte uma competente revisão da física de partículas com um panorama dos últimos trabalhos em cosmologia e salpique um pouco do que já se publicou sobre a origem da vida; acrescente à mistura um tom memorialista e extraia deliciosas conclusões epistemológicas, que, se não questionam a base da ciência ocidental, pelo menos lançam novos "insights" sobre as motivações dos que a escreveram e o tipo de busca em que se enredaram.

Como sou menos do que um aprendiz em física e biologia, não me aventuro muito nessa seara. Só o que posso dizer é que Gleiser, como bom professor --atualmente, ele dá aulas no Dartmouth College, em New Hampshire (EUA)--, é quase claro em suas explicações. Ao ler seus esclarecimentos sobre bárions, léptons e supercordas, ficamos com a sensação, certamente enganosa, de ter compreendido tudo.

Deixemos, entretanto, os quarks e bósons para os físicos. O que me interessa discutir aqui é a filosofia da ciência por trás do livro. A tese central de Gleiser é que, desde os primeiros filósofos gregos, sempre foi a busca por princípios de unificação e simetria que inspirou os cientistas. Desvendar o mundo equivalia a descobrir a ordem matemática por trás das coisas. "A matemática é o alfabeto no qual Deus escreveu o universo", disse certa vez Galileu Galilei. E o astrônomo de Pisa não foi o primeiro nem o último a tentar ler o divino na ordem natural. A tradição, com efeito, remonta aos gregos --especialmente os pitagóricos e a Platão--, mas prosperou, ecoando até mesmo em Einstein, para quem "o Senhor não joga dados".

(Diga-se, "en passant", que, embora muitos gostem de citar Einstein como exemplo de cientista religioso, este não é o caso. É certo que ele adorava metáforas envolvendo a imagem de Deus, mas, na verdade, era um judeu ateu de boa cepa. Numa carta

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1505200804.htm

escrita em 1954 --ou seja, um ano antes de sua morte-- ao filósofo alemão Eric Gutkind, o físico não deixa margem a dúvidas: "A palavra Deus para mim nada mais é que expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis. Nenhuma interpretação, não importa quão sutil, pode mudar isso").

De volta a Gleiser, o autor sustenta que é em virtude desse amor pela simetria, ao qual chama de "encantamento jônico", que a física persegue até hoje uma teoria que unifique todas as quatro forças da natureza --eletromagnetismo, gravidade, e as forças nucleares forte e fraca. Só que é perfeitamente possível que essa supersimetria pela qual ansiamos com tanto ardor não exista. E, se é precipitado desde já abrir mão de buscá-la, é ainda mais errado erigir essa simetria em dogma.

E aí Gleiser se propõe a contar uma história um pouco diferente. Segundo ele, é possível interpretar a história do universo como uma história de assimetrias. Foi um ligeiro excesso das partículas de matéria sobre as de antimatéria nos primeiros instantes após o Big Bang --um desequilíbrio-- que tornou possível a existência de galáxias e estrelas. De modo análogo, ao que tudo indica, pequenas flutuações randômicas (térmicas, de radiação ou sabe-se lá o quê) --um desequilíbrio-- estão na origem das moléculas orgânicas das quais somos constituídos. Também as mutações, que permitiram a transformação de átomos de carbono ligados a meia dúzia de elementos químicos baratos em organismos complexos, são fruto de erros aleatórios de replicação.

Evidentemente, Gleiser não está propondo que viremos do avesso a forma de fazer ciência. Para sermos rigorosos, ele não está nem mesmo sugerindo que a narrativa dos desequilíbrios seja superior a uma outra, que enfatize as simetrias. (Mal e mal, foi a busca pela harmonia que nos legou todo o conhecimento que acumulamos até agora). No fundo, a diferença entre essas duas narrativas é de ordem estética. O que ele diz, e me parece ao mesmo tempo extremamente sensato e humilde, é que a ciência é uma busca sem fim. Não existem nem jamais existirão teorias finais. Nunca poderemos conhecer tudo, pois existem limitações para o que podemos medir. E, no que se torna um "Leitmotiv" ao longo do livro, só conhecemos o que podemos medir.

Com isso, a ciência fica como que condenada a ser no máximo a melhor explicação que uma determinada época pode dar ao conjunto de observações (mensurações) com as quais lida. Daí não decorre, evidentemente, que a especulação deva ser banida da ciência. É preciso porém que, em algum momento, as especulações encontrem amparo na experiência, ou o discurso deixa de ser científico e se torna apenas metafísico. Os limites, é claro, são tudo menos definidos. Uma boa teoria pode surgir décadas antes de que sejam produzidos os equipamentos capazes de testá-la. Nesse interstício, ela não deixa de ser uma hipótese científica. Por outro lado, se a cada não verificação de um fenômeno previsto pela teoria, os físicos vão ajustando os parâmetros para procurar um pouquinho mais longe e a teoria vai sendo "esticada". Ela não chega a ser falseada, mas talvez seja o caso de acionar o sinal amarelo. Para Gleiser, é mais ou menos esse o cenário da física de partículas, que vai exigindo aceleradores de energias cada vez mais altas. É hora de considerar a possibilidade de certas partículas conjecturadas pelo nosso desejo de simetria não existirem.

O tom memorialista de "Criação" dá um bom tempero, pois Gleiser conta como se deu sua transformação de apaixonado defensor de teorias unificadas em cético desse tipo de narrativa. Evidentemente a trajetória do autor não constitui prova de nada, mas é inegável que confere sabor à obra.

E, por falar em sabor, vale destacar uma gostosa ironia. Gleiser, que é um dos cientistas que criticam o radicalismo ateu de Richard Dawkins, acaba, ainda que sem o alarde de seu colega inglês, desferindo mais um formidável golpe contra Deus. Na narrativa das assimetrias que ele esboça, já não restaria a Deus nem mesmo o papel de Grande Geômetra ou de Arquiteto do Universo. O universo e a vida são o resultado de uma cadeia de erros e imperfeições. Se a matemática é o alfabeto divino, Deus é disléxico (desculpem, não resisti à piada).

21 de mar. de 2010

A viagem


Autora de "Fumaça Negra", musicóloga Margaret de Wys diz que os médicos não acreditam que tenha se curado com hoasca; feito de cipó e arbusto, chá alucinógeno lança altas doses de serotonina no sistema nervoso central

A hoasca confere status de realidade às experiências interiores

Divulgação

Cerimônia conduzida pelo xamã Carlos no interior da floresta
amazônica, no Equador


MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA
O poder da ayahuasca sobre a vida de uma pessoa pode ser devastador -em geral, para o bem. A americana Margaret de Wys que o diga. Depois do contato com a bebida alucinógena originária da Amazônia, conhecida no Brasil como hoasca, sua carreira de compositora sofreu um baque e o casamento acabou, mas ela se curou de um câncer de mama.

O tumor havia sido diagnosticado em 1999. Com simpatia pelo xamanismo, De Wys (pronuncia-se "di uaiz"), rumou para a Guatemala. Queria buscar uma cura entre os participantes de uma cerimônia maia de caráter ecumênico, com curandeiros de vários países. Ali encontrou o equatoriano Carlos e, por suas mãos, a hoasca.

"Eu enxergo dentro de você -suas veias, seus órgãos, seu sangue, suas células", anunciou-lhe Carlos, da etnia shuar (ou jivaro), na cerimônia em que beberam o preparado do cipó Banisteriopsis caapi e das folhas de Psychotria viridis.

"A fumaça negra está presa em seu peito. Venha para o Equador e eu a curarei."

"Black Smoke - A Woman's Journey of Healing, Wild Love, and Transformation in the Amazon" (Fumaça Negra, ed. Sterling, 240 págs., US$ 19,95, R$ 36) é o título do livro que a professora do Bard College, de Nova York, publicou há um ano sobre "a jornada de cura, amor selvagem e transformação de uma mulher na Amazônia", como diz o subtítulo.

"Carlos" é um nome fictício que ela deu, na obra, à sua paixão sul-americana. Após a publicação, De Wys passou a organizar pequenos grupos de americanos para conhecer os poderes do shuar (a primeira viagem, em fevereiro, tinha cinco pessoas).

Entre a Guatemala e o Equador, ela se submeteu a uma lumpectomia (retirada de tumor e tecidos adjacentes) nos EUA. Não seguiu, contudo, o tratamento prescrito pelos médicos americanos: seis semanas de radioterapia e cinco anos do antitumoral tamoxifeno.

"Fico aterrorizada com remédios ocidentais", diz, "por causa dos efeitos colaterais".

Todos os anos ela faz exames para verificar se o tumor voltou, e o resultado é sempre negativo. "Você não tem mais nada no peito, não enxergo nada", disse-lhe Carlos há poucos meses, durante sua última visita ao Equador.

"Nem eu", respondeu-lhe a compositora. "Mas os médicos não acreditam em cura."

Na iniciação com "natem" (nome shuar para a hoasca) há dez anos, porém, De Wys viu de tudo. Suas "mirações", como se diz entre praticantes brasileiros do Santo Daime e da União do Vegetal, incluíram entrar na boca de uma sucuri do tamanho de uma garagem.

Numa das alucinações, uma onça macho invadiu o corpo de Carlos, e outra, fêmea, o da americana. "O jaguar em Carlos era selvagem e brutal", contou De Wys à jornalista Roberta Louis em entrevista publicada pela "Bomb Magazine".

Hoje, sua relação com o equatoriano é estritamente profissional, ressalva.

Olhos bem fechados
O poder da hoasca sobre a mente deriva dos potentes alcalóides presentes no cipó B. caapi e no arbusto P. viridis empregados no preparo do chá.

O arbusto é rico na substância alucinógena dimetiltriptamina (DMT), que não tem efeito quando ingerido. Mas a DMT conta com a ajuda da harmina e da harmalina do cipó para chegar ao sistema nervoso central, onde juntas iniciam a subversão da consciência.

O mecanismo básico é uma inundação de serotonina, neurotransmissor com múltiplos e complexos efeitos no corpo e no cérebro.

Pessoas deprimidas, por exemplo, costumam ter baixos teores de serotonina. A fluoxetina (Prozac) consegue melhorar sua vida porque impede a recaptação (retirada) do neurotransmissor no espaço livre entre os neurônios, reforçando a comunicação entre eles.

Há uma tradição de pelo menos duas décadas de pesquisa sobre a hoasca no Brasil.

Uma equipe de dez neurocientistas da USP de Ribeirão Preto, do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e do Centro IBM JB Watson (Nova York) tem apresentado em congressos um trabalho com algumas revelações surpreendentes sobre a beberagem. Seis deles já experimentaram a hoasca.

Draulio de Araujo, Sidarta Ribeiro e seus colegas trabalharam com dez usuários frequentes do chá. Todos eram membros do grupo de Mestre Pelicano (irmão do cartunista Glauco) em Ribeirão Preto. O manuscrito tem o título "Vendo com os Olhos Fechados".

O grupo de pesquisa registrou imagens de atividade cerebral obtidas por ressonância magnética funcional durante tarefas visuais antes e depois da ingestão de 0,2 litro do chá.

A tarefa tinha três passos: contemplar uma imagem familiar por 21 segundos, depois fechar os olhos e imaginar a foto mostrada, e, por fim, olhar uma versão embaralhada da mesma imagem.

Três testes psiquiátricos padronizados avaliaram sintomas psicóticos, despersonalização/desrealização e sintomas maníacos dos participantes. Como era de esperar, todos tiveram aumento de sintomas depois de tomar o chá.

Todos também relataram aumento da capacidade de imaginação no segundo passo da tarefa, com as cenas tornando-se muito mais vívidas e reais -apesar dos olhos bem fechados. As áreas cerebrais mais ativadas estão associadas com a recuperação de memórias episódicas (fatos, lugares, pessoas), a ação intencional e o processamento visual.

Sua ordem unida, contudo, é reorganizada pela hoasca. Na vigília sem o chá, sensações interiores são intencionalmente interpretadas à luz de memórias e servem de base para a ação, a cada momento.

Revelações místicas
Sob a ação do chá, a imaginação chega ao poder, de certo modo, com a área visual primária (BA17) tomando a dianteira da ativação das áreas frontais envolvidas na vida consciente.
Nessa sequência, as imagens compostas pela imaginação sem peias aparecem para a mente como fatos.

"A hoasca confere status de realidade às experiências interiores", resumem os neurocientistas. "É compreensível, portanto, por que a hoasca foi culturalmente selecionada ao longo de muitos séculos por xamãs da floresta tropical para facilitar revelações místicas de natureza visual."

"As mirações são tão reais quanto a percepção visual de elementos externos, pelo menos no que diz respeito à modulação observada no sistema visual primário", explica Draulio de Araujo.

"Foi uma baita surpresa", afirma Sidarta Ribeiro. "Esperávamos que as áreas frontais assumissem a liderança."

Tais conclusões, no entanto, "explicam" (aspas de Ribeiro, em comunicação por e-mail) como ocorrem as mirações, sem excluir nem confirmar interpretações místicas.


No Brasil, a hoasca foi retirada em 1987 da lista de substâncias proibidas
É uma droga muito mais benigna para o organismo do que a heroína e a cocaína




Na tradição de pesquisa sobre a hoasca, ganhou fama um artigo publicado em fevereiro de 1996 por cientistas brasileiros, americanos e finlandeses no periódico "The Journal of Nervous & Mental Disease".

Tinha como primeiro autor Charles Grob, da Universidade da Califórnia.

Era tudo de bom: 15 usuários do chá na União do Vegetal, comparados com 15 não usuários no grupo de controle, se mostraram mais reflexivos, leais, estoicos, frugais, ordeiros e persistentes. E ainda mais confiantes, relaxados, otimistas, despreocupados, desinibidos, enérgicos...

O estudo chegou a ser usado em tribunais americanos na batalha iniciada em 1999 por Jeffrey Bronfman em favor da legalidade da hoasca. Representante da União do Vegetal nos EUA e um dos herdeiros do império Seagram de bebidas alcoólicas, Bronfman teve três tambores da bebida confiscados como droga ilegal.

O caso só se encerraria em fevereiro de 2006, quando a Suprema Corte confirmou decisões anteriores determinando a devolução da hoasca e a legalidade de seu uso em contexto religioso.

No Brasil, a hoasca foi retirada da lista de substâncias proibidas em 1987, e a decisão sofre contestações desde então. No entanto, foi reconfirmada em 25 de janeiro deste ano pela resolução nº 1 do Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas).

Apesar do reconhecimento da legitimidade do uso religioso do chá, parece haver consenso de que se trata, sim, de uma droga. "Certamente, como o LSD, a maconha, o álcool e o café", afirma o neurocientista Sidarta Ribeiro.

"É uma droga muito mais benigna para o organismo do que a heroína e a cocaína, pois não há overdose conhecida, nem adição [vício] pronunciada."

Potencial perturbador
Henrique Carneiro, especialista em história de alimentos e bebidas da USP, concorda que o chá não é fisiologicamente perigoso: "Psicologicamente, depende. É uma substância com potencial perturbador para quem não é experiente, ou dependendo do ambiente -um ambiente sereno tende a garantir boas experiências".

Para Ribeiro, a hoasca não deve ser dada a quem estiver no limiar de psicose, grávida ou for criança. "Pessoas com tendências psicóticas? Mentes frágeis? Esquece!", sentencia De Wys, que não admite gente desse tipo em seus grupos.

Mas ela sustenta que Carlos já curou esquizofrenia com a hoasca -e até gangrena.

Seu fascínio pelas curas que evita chamar de "miraculosas" -pois, para os xamãs, elas e os espíritos envolvidos fazem parte da ordem natural do mundo- também a trouxe "quatro ou cinco vezes ao Brasil".

Quem a atraiu foi o médium João de Deus, de Abadiânia (GO), mas ela aproveitou para conhecer terreiros de umbanda. Tudo para escrever um novo livro, concentrado em curandeiros do Brasil e da África do Sul.

Para a americana, Carlos e João de Deus, de certo modo, têm práticas similares, na medida em que se comunicam com espíritos ou os incorporam para realizar as curas.

Há uma grande diferença, porém: Carlos o faz de forma "consciente".

É ver para crer.

Alucinação assassina


Tomar o chá alucinógeno da seita Santo Daime quando se tem um transtorno psíquico, afirmam especialistas, é o mesmo que jogar gasolina sobre um incêndio. Tudo indica que foi o caso de Cadu, o assassino do cartunista Glauco e de seu filho Raoni


Kalleo Coura e Renata Betti
Montagem com fotos de Christian Rizzi/AGP/Folhapress e Marcos Mendes
LOUCURA E MORTE
Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, assassino confesso do cartunista Glauco e de seu filho Raoni: alucinações levaram ao crime

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No universo das tragédias, há as do tipo previsível e as que fulminam suas vítimas com a imprevisibilidade de um raio. O assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas, de 53 anos, e de seu filho Raoni Ornellas Vilas Boas, de 25 anos, cometido por Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, certamente não pertence à primeira categoria. Cadu, como é conhecido o criminoso confesso, nasceu em uma família de classe média alta de São Paulo e estudou nas melhores escolas da capital paulista. Morava em bairro nobre, frequentava os bares da moda, ia a baladas de black music e, segundo a família, nunca havia demonstrado comportamento violento. Os avós, com quem ele morava, sabiam que o neto usava maconha ("Como fazem hoje em dia 90% dos jovens", disse Carlos Nunes Filho, o avô) e, embora lamentassem o fato de ele ter começado três faculdades sem terminar nenhuma (direito, artes visuais e gastronomia), não viam nisso mais do que uma indecisão em relação ao seu futuro profissional. Glauco e o filho Raoni tampouco tinham perfil ou comportamento que poderia ser classificado como "de risco" – nada que contribuísse para fazer deles vítimas potenciais de um assassinato. Nenhum dos dois tinha inimigos e ambos mantinham como ideário de vida a assistência ao próximo: drogados em busca de recuperação, no caso de Glauco, e comunidades indígenas isoladas, no caso de Raoni. Ainda assim, não se pode dizer que a tragédia ocorrida em Osasco no último dia 12 não deu pistas de que vinha se aproximando.
Nos últimos três anos, Cadu, de 24 anos, vinha exibindo claros sinais de que estava sofrendo de distúrbios psíquicos. Esse período, segundo seu pai, Carlos Grecchi, coincide com o tempo que o filho começou a frequentar o Céu de Maria, igreja fundada por Glauco e pertencente à seita Santo Daime, que mistura elementos do cristianismo, espiritismo e umbanda e prega o consumo de um chá com efeitos alucinógenos como forma de "atingir o autoconhecimento e a consciência cósmica". O comportamento de Cadu, diz Grecchi, começou a se transformar quando ele passou a fazer uso da dimetiltriptamina (DMT), o princípio ativo presente na beberagem consumida por adeptos da seita. Por diversas vezes, tanto Grecchi como os avós de Cadu ouviram o jovem dizer que era a reencarnação de Jesus Cristo. Também por diversas vezes os parentes flagraram o jovem rezando, numa ocasião debaixo de chuva forte, para plantas que ele dizia serem reencarnações de entidades religiosas.
Gabriel Boieras
CULTO E "MIRAÇÃO"
A comunidade Céu do Mapiá, no Acre, abriga a sede da seita (à dir.). Ao lado, culto no Céu de Maria.
Quem vai tem de beber o chá

Às tentativas de levá-lo a um psiquiatra ou a uma clínica de internação, Cadu reagia com determinação e pavor. Dizia que não queria ficar como sua mãe, portadora de esquizofrenia. A esquizofrenia faz com que suas vítimas sejam acometidas por delírios e alucinações, em surtos que duram, no mínimo, um mês. Vozes e seres imaginários solapam a percepção da realidade. Falsas ideias de perseguição e possessão tornam a vida um pesadelo contínuo. A esses surtos se intercalam períodos de uma apatia profunda, marcados por lentidão de raciocínio e desordem de pensamento. O risco de desenvolver essa psicose sobe de 1% para 13% no caso de pessoas cujo pai ou mãe sofre do transtorno. Na família de Cadu, além da mãe, também uma tia-avó foi diagnosticada com esquizofrenia. Seu pai diz estar convencido de que o filho herdou a doença (veja entrevista abaixo). E começa aqui a parte em que a tragédia do Céu de Maria atravessa o campo do imponderável para adentrar o espaço aterrador das desgraças que talvez pudessem ter sido evitadas.
Grande parte dos portadores de esquizofrenia consegue levar uma vida razoavelmente normal desde que sob tratamento – que, além de medicação, inclui manter distância de certas substâncias. Como chás alucinógenos, por exemplo. A DMT aumenta a concentração no cérebro de três neurotransmissores: a serotonina, a noradrenalina e a dopamina. Como os portadores de esquizofrenia têm um aumento na atividade da dopamina, a sobrecarga dessa substância pode fazer com que eles percam a noção de realidade e tenham alucinações – estado que pode continuar mesmo depois que o efeito da droga termina. Em outras palavras, permitir que portadores de psicoses como a esquizofrenia bebam o chá da seita Santo Daime equivale a jogar gasolina sobre uma casa em chamas. Tudo indica que foi exatamente o que os seguidores da seita fizeram durante os três anos em que Cadu frequentou o local.
Ninguém duvida de que a igreja fundada por Glauco reúna homens e mulheres de boa vontade, ótimas intenções e um propósito louvável: o de ajudar a livrar os jovens das drogas, coisa que o próprio Glauco havia conseguido fazer consigo mesmo, segundo afirmava, graças ao Santo Daime. Se, no entanto, o que diz Grecchi, o pai de Cadu, não estiver distorcido pela dor e pelas circunstâncias, Glauco foi, sim, solicitado a não mais ministrar o alucinógeno a Cadu ainda em 2007. Por descuido ou desconhecimento acerca do estado de saúde do rapaz, ele não atendeu ao pedido. Em depoimento à polícia, Cadu afirmou que bebeu o chá todas as vezes em que foi ao Céu de Maria.
A DMT é proibida em quase todo o mundo. Ao lado do LSD e da mescalina, ela aparece na lista de drogas controladas na Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas da Organização das Nações Unidas. Essa lista é seguida por 183 países, o Brasil incluído. A convenção, entretanto, não proibiu plantas ricas na substância, como a erva-rainha ou chacrona, que dá origem à beberagem do Daime. Isso permite a interpretação de que apenas a substância é proibida e a planta, que tem pequena concentração dela, não. No Brasil, em 1992, graças a uma campanha liderada por "ayahuasqueiros", o Conselho Federal de Entorpecentes liberou o consumo do chá daimista "para fins religiosos". Foi o primeiro de uma sucessão de erros que culminou com a consagração do chá como "bebida sagrada", título concedido à substância alucinógena pelo estado brasileiro em janeiro passado. O advogado criminalista Fernando Fragoso considera a interpretação casuística. "Uma droga não deixa de ser droga se for consumida no meio de um ritual. A substância é lícita ou não é", diz. A Associação Brasileira de Psiquiatria também já se manifestou contra a liberação do chá, sob o argumento de que não existem estudos suficientes para descrever em profundidade a ação no cérebro da DMT presente na beberagem.
De acordo com a família de Cadu, a última vez que ele ingeriu o chá foi por ocasião do Ano-Novo. Nesse período, conforme afirmou à polícia, Cadu já estava traficando maconha com o propósito de juntar dinheiro e comprar, por 1 900 reais, a arma com que matou suas vítimas. O propósito seria obrigar o cartunista e líder religioso a dizer a sua família que seu irmão mais novo, Carlos Augusto, seria a reencarnação de Jesus Cristo. A mãe de Cadu, Valéria Sundfeld Nunes, mora sozinha no bairro do Pacaembu, na zona oeste de São Paulo, mas é assistida de perto pelos pais, que a visitam duas vezes por dia. Ela trabalha em uma ótica, mas está há três meses afastada, segundo o patrão, por problemas de saúde. O avô de Cadu conta que ela reagiu à notícia da prisão do filho com apatia: "Parecia que haviam dito que ele tinha ido ao supermercado".
Marlene Bergamo/Folha Imagem
MEDO
A viúva de Glauco, Beatriz Galvão (de camiseta clara), com a filha, Juliana; ao lado, Ipojucã, filho do cartunista, e a namorada de Raoni, Gersila: a família não quis voltar para casa e foi abrigada por amigos
Cadu foi preso na noite de domingo em Foz do Iguaçu (PR), depois de tentar atravessar a fronteira para o Paraguai, na Ponte da Amizade. Num Fiesta preto que havia roubado em São Paulo, disparou cerca de quinze tiros pelo para-brisa do carro em movimento contra os policiais federais que quiseram impedi-lo. Feriu um deles no braço e só parou do lado paraguaio da ponte ao ver que sua passagem estava trancada por outra barreira montada pelo país vizinho. Nesse momento, sem que ninguém lhe perguntasse, saiu do carro com os olhos esbugalhados, bradando: "Sou o Cadu. Fui eu que matei o Glauco". Apesar da confissão, o crime ainda guarda pontos obscuros. O primeiro diz respeito ao papel de Felipe Iasi, o amigo que teria sido coagido a levar Cadu ao Céu de Maria na noite do assassinato. Por meio do rastreador instalado no carro do rapaz pela companhia de seguros, a polícia reconstituiu o trajeto que Iasi percorreu depois de deixar a casa de Glauco. A análise inicial mostrou que o itinerário de Iasi coincide, ao menos nos primeiros 8 quilômetros, com aquele percorrido por Cadu e revelado por meio do sinal do seu celular. Isso indicaria a possibilidade de Iasi ter dado cobertura ao amigo na fuga. Há ainda a possibilidade de Cadu ter omitido outra informação: em depoimento, ele diz que roubou o Fiesta no domingo de manhã e seguiu viagem. O rastreamento do veículo indica, porém, que, às 13 horas do domingo, o carro encontrava-se no Parque do Ibirapuera. A polícia vai investigar o que Cadu pode ter ido fazer lá. Por fim, há que esclarecer por que motivos o advogado e amigo da família de Glauco, Ricardo Handro, mentiu a respeito das circunstâncias em que se deu o crime. Ele chegou a dar detalhes à imprensa do que teria sido uma tentativa de sequestro seguida de homicídio. Sua versão só mudou quando se tornou insustentável diante dos fatos revelados pela polícia – entre eles o de que o assassino era conhecido das vítimas e frequentador da igreja Céu de Maria. Ele se defende dizendo que não havia falado com a mulher de Glauco quando divulgou sua falsa versão. A polícia considera o argumento pouco plausível.
Fred Chalub/Folha Imagem
MAIS SUSPEITO
Nova perícia policial sugere que o estudante Felipe Iasi deu cobertura à fuga de Cadu

As origens da seita Santo Daime estão ligadas à descoberta, pelos seringueiros do Acre, da ayahuasca, como os índios que viviam na Floresta Amazônica no século XIX chamavam o chá. Um dos primeiros a consumir a bebida, o seringueiro Raimundo Irineu Serra teria tido uma visão de Nossa Senhora, na qual ela ordenava que ele passasse a chamar o chá de santo-daime (a palavra viria da exortação "dai-me luz") e criasse uma doutrina em torno dele. O ritual criado por Irineu e replicado em todo o país se desenrola da seguinte forma: o interessado em provar da ayahuasca passa por uma breve entrevista para que os "fardados", os daimistas graduados, questionem suas motivações. Apenas em algumas igrejas se pergunta ao interessado se ele tem problemas psíquicos. Uma vez aceito, o calouro daimista pode participar do culto. Os participantes se sentam formando um círculo, os homens separados das mulheres. Cantam hinos de letra singela e repetitiva, que misturam referências cristãs e espíritas. Depois de algumas músicas, chega o momento do primeiro chá. As pessoas se organizam em fila e tomam meio copo do alucinógeno. Em geral, isso se repete quatro vezes. O culto pode durar até doze horas. Só recebem autorização para uma saída rápida do salão os que precisam vomitar, ocorrência que costuma afetar os daimistas de primeira viagem. Hoje, a seita tem mais de 100 igrejas em todo o país. Só a Céu de Maria tem 11 000 adeptos que tomam regularmente a DMT.
Na semana passada, uma entidade da Bahia chamada Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos entrou com uma petição no Supremo Tribunal Federal pedindo a liberação da maconha "para uso terapêutico e religioso". Caso a petição seja aceita, são grandes as chances de outras drogas entrarem para o rol de "sagradas". Tolerância em excesso, combinada com negligência na mesma medida e uma boa dose de vulnerabilidade, física ou emocional das partes envolvidas: eis uma boa receita para construir uma tragédia.
Claudio Rossi


"Ele só falava da igreja"

Alexandre Schneider
FOI O DAIME
Carlos Grecchi, o pai do jovem que matou Glauco: "O chá foi o fator desencadeante"
O comerciante Carlos Grecchi, pai de Carlos Eduardo, o assassino confesso de Glauco e Raoni, atribui o agravamento do estado psíquico de seu filho ao consumo do santo-daime. Na última quinta-feira, Grecchi, que vive em Goiás, falou a um grupo de jornalistas no escritório de seu advogado, em São Paulo.

DAIME E ESQUIZOFRENIA
"Para mim, o chá que Carlos Eduardo tomava no Céu de Maria foi o fator desencadeante de um surto psicótico – que, rezo a Deus, não se transformará numa esquizofrenia profunda. Eu sei como é um surto psicótico, porque convivi com a mãe dele, que tem esquizofrenia. O exame toxicológico feito nele deu positivo para maconha. Vocês acham que alguém que fuma maconha teria ficado daquele jeito? Agora, na Polícia Federal, ele não está usando drogas e continua alterado. Que droga teria um efeito tão prolongado?"

A FAMÍLIA "ACHOU LEGAL"
"Quando meu filho contou que estava frequentando a igreja, a família até achou legal. Mas, pouco tempo depois, ele começou a querer doutrinar os amigos. Só falava da igreja, chegou a ponto de rezar para as plantas, falando que elas eram encarnação de Jesus... Eu falei que ia ter de interná-lo. Ele se ajoelhou e pediu pelo amor de Deus para não interná-lo, porque não queria ficar igual à mãe"
ELE TAMBÉM EXPERIMENTOU
"No ano em que ele passou a frequentar a igreja, eu fui até lá e tomei o chá para saber o que meu filho estava tomando. É claramente alucinógeno. Você fica viajando, fora da realidade"

UM PEDIDO À IGREJA
"Tentei convencê-lo a não ir mais ao Céu de Maria. Em 2007, fui até lá pedir pessoalmente para que não o deixassem mais tomar o chá. O Glauco disse que não podia fechar as portas para ninguém. Minha mãe, que tem 80 anos, também foi reclamar, mas ofereceram o chá para ela"

O ÚLTIMO CHÁ
"No réveillon, meu filho foi até o Céu de Maria. Ele me ligou quando tentava voltar para casa, dizendo que estava morrendo. Eu o encontrei num estado lamentável, dentro do carro, em um barranco. Ele estava tremendo, suado, e havia urinado e defecado nas calças. Segurava o celular. Eu tinha ligado umas vinte vezes, e ele não conseguia atender. Levei-o para casa, e ele disse que havia exagerado um pouco no tal do chá"

25 de set. de 2009

A Consciência vista pela neurociência



António Damásio, o autor de O Mistério da Consciência, um dos maiores neurologistas do mundo, diz que a grande polémica, no futuro, será o controle das emoções pelo conhecimento da mente
No campus da Universidade de Iowa, Estados Unidos, o neurologista português António Damásio gasta boa parte do tempo tentando compreender uma das áreas mais nebulosas do conhecimento: a consciência humana. "É difícil encontrar um desafio mais instigante para um cientista", diz Damásio. "Afinal, o que poderia ser mais fascinante do que conhecer o modo como conhecemos?"
Nos seus dois livros, O Erro de Descartes e O Mistério da Consciência (editados no Brasil pela Companhia das Letras), Damásio descreve como a consciência abriu caminho para uma verdadeira revolução na natureza, tornando possível o surgimento da religião, da moral, da organização social e política, das artes, da ciência e da tecnologia. Ele tenta encontrar as respostas para as questões mais antigas da filosofia pesquisando o que há de mais novo no conhecimento do cérebro. Depois da polémica em torno da clonagem humana, ele prevê que os debates mais fervorosos da ciência estarão ligados à possibilidade de manipularmos nossas emoções por meio de uma melhor compreensão da mente.
Qual a origem da consciência humana?
A consciência é fruto da necessidade básica de nos mantermos vivos. É claro que, na natureza, existe uma série de organismos simples que vivem de uma forma basicamente automática. Desde que mantenham cuidados básicos, como evitar perigos e adquirir a energia por meio dos alimentos, a vida desses organismos pode ser preservada. Os seres humanos são mais complexos: além de precisarem manter a vida de uma forma simples, eles têm que se adaptar a um ambiente cheio de dificuldades para obter energia e se expõem a inúmeros perigos e oportunidades. Nesse ambiente que não é apenas físico, mas também cultural, precisamos de um sistema complexo de imaginação, criatividade e planeamento. A consciência surge dessa necessidade.
Existe uma primeira forma de consciência?
Uma forma de consciência inicial aparece quando o homem sente que ele é um ser em si mesmo. É difícil encontrar uma palavra, em português, para definir o processo. Chamo essa consciência de self. É ela que faz que não sejamos um robô, uma máquina manipulável. Podemos guiar a imaginação e conduzir a criatividade por meio dessa consciência. Para compreendermos o que é a dor, o sofrimento, e também o prazer das outras pessoas, precisamos antes ter uma ideia de quem somos. E a consciência self é fundamental para que possamos respeitar os outros.
Como o estudo da consciência pode melhorar a vida das pessoas?
Grande parte do sofrimento humano é causado por conflitos das pessoas consigo mesmas. Quando conhecemos mais a natureza biológica do homem, encaramos esses problemas com outro olhar. Se conhecemos os mecanismos que accionam a ansiedade, a tristeza e a alegria, podemos entender melhor como cada pessoa é e evitar certos problemas. Pense nos conflitos religiosos, políticos e de grupos sociais. É claro que há bases económicas para eles – mas acredito que a compreensão das emoções pode ajudar a mudar a maneira pela qual as pessoas tentam resolver essas disputas. Entender a tendência para a violência, para a competição ou o funcionamento do medo é fundamental para o autocontrole. Posso soar optimista, mas acredito que, quando admitirmos que nossa razão é influenciada por essas emoções, o mundo poderá tornar-se melhor.
A compreensão detalhada da consciência não pode nos tornar mais céticos – ao descobrirmos, por exemplo, que há, no cérebro, uma região responsável pelo amor ou outra pela fé?
Mesmo que venhamos a compreender a mente com mais profundidade, será muito difícil desvendar mistérios como a origem do universo ou o que faz com que nos apaixonemos por outra pessoa. É possível que nunca cheguemos a desvendar essas questões – talvez nosso cérebro não tenha capacidade para compreender certos enigmas...
Como a crença em Deus...
Exactamente. Acho improvável que a neurociência consiga, um dia, apresentar razões para que as pessoas tenham ou deixem de ter fé numa inteligência superior. Elas podem até deixar de acreditar em milagres. Mas a ciência não tem como concluir que o Criador existe ou deixa de existir. A fé e a origem do universo não são problemas científicos passageiros. Mesmo assim, o conhecimento da mente pode mudar a forma como nos relacionamos com a vida. As pessoas tendem a aceitar a morte em função da complexidade do universo. Acho que deveria ser o contrário: constatando como a vida é frágil, podemos dar mais importância a ela e trabalhar para que seja a melhor possível enquanto dure.
A cada ano surgem um novo antidepressivo e drogas que provocam emoções artificiais. Você acredita que, no futuro, teremos uma droga que possa acabar com as emoções negativas?
Acho que sim. É uma questão importante, que precisaremos discutir cada vez mais. Imagine uma superpopulação tomando Prozac diariamente. Esse grupo de pessoas alteraria um sistema natural e poderia causar diversos problemas – é claro que alguns problemas seriam resolvidos, mas as consequências da proliferação dessa medicação poderiam levar à ruína de uma sociedade. Tem que haver mais investigação sobre como essas drogas serão usadas. É claro que as pessoas deprimidas devem ser tratadas, mas pode ser um erro tomar o medicamento apenas para inibir a timidez e impulsionar a vida social. A ciência precisa trazer mais informações para que esses temas não sejam discutidos pela simples opinião ou intuição de algumas pessoas.
Chegaremos, um dia, a manipular tão bem as áreas do cérebro que poderemos reproduzir com uma pílula a sensação de voar ou de passear numa montanha russa?
É bem provável que isso seja possível. E, sem dúvida, para a sociedade esse será um assunto tão polêmico quanto o da clonagem genética. Vamos ter que decidir o que deve e não deve ser permitido – exatamente como na regulamentação da indústria do cinema e da televisão. Há um ponto em que tanto a criação artística quanto a científica precisam ser filtradas pela sociedade. Mas não podemos deixar que um burocrata decida isso. Quanto mais informações forem divulgadas no futuro, inclusive por meio desta revista, mais condições a sociedade terá para tomar suas decisões.

Que outro tipo de realidade virtual poderá ser criada, no futuro, manipulando o cérebro?
Prefiro não especular, tudo ainda não passa de teoria.
O estudo da consciência humana é um campo da ciência à espera de um novo Newton?
O problema da consciência é um tema complexo, que tem sido mal abordado. É evidente que é necessário avançar muito mais. Acho que meu livro O Mistério da Consciência traz alguns avanços importantes sobre o assunto, mas não devemos ter a ingenuidade de acreditar que tudo está resolvido. Há imensos problemas à espera de mais investigação e trabalho. Nos próximos dez ou 20 anos, talvez seja possível resolver boa parte deles.
Como escrever sobre assuntos tão complexos para o público leigo?
Os temas sobre os quais escrevo são importantes demais para ficarem restritos aos cientistas. Escrever sobre o pâncreas ou o fígado pode ser atraente apenas para os médicos, mas o público tem interesse quando falamos da mente, do pensamento, da emoção e do sentimento. É fantástico o retorno que tenho recebido dos leitores dos meus livros em todo o mundo. Interessados em arte, literatura e cinema dizem que essa pesquisa os ajuda a compreender melhor o que fazem nas suas próprias áreas.