Correntes místicas se apropriam indevidamente de idéias científicas para explicar todo tipo de fenômeno espiritual
Pablo Nogueira
O que a cabala, a umbanda, os florais de Bach e a telepatia têm em comum? Parece uma pergunta estranha para ser feita em GALILEU, mas não é. A resposta é que, cada vez mais, estas e outras correntes místicas e alternativas buscam se aproximar da ciência para embasar suas práticas. Nos livros, cursos e programas que atendem ao segmento alternativo, idéias geradas dentro da pesquisa científica estão sendo evocadas em contextos totalmente diferentes daqueles onde foram concebidas e são usadas para explicar todo tipo de fenômeno. Nesse circuito é possível escutar a teoria de supercordas, a mecânica quântica, o estudo do DNA ou os modelos de buracos negros sendo utilizados para explicar a eficiência da astrologia, a cura pelo pensamento e a existência concreta do plano espiritual.
Pablo Nogueira
![]() |
O que a cabala, a umbanda, os florais de Bach e a telepatia têm em comum? Parece uma pergunta estranha para ser feita em GALILEU, mas não é. A resposta é que, cada vez mais, estas e outras correntes místicas e alternativas buscam se aproximar da ciência para embasar suas práticas. Nos livros, cursos e programas que atendem ao segmento alternativo, idéias geradas dentro da pesquisa científica estão sendo evocadas em contextos totalmente diferentes daqueles onde foram concebidas e são usadas para explicar todo tipo de fenômeno. Nesse circuito é possível escutar a teoria de supercordas, a mecânica quântica, o estudo do DNA ou os modelos de buracos negros sendo utilizados para explicar a eficiência da astrologia, a cura pelo pensamento e a existência concreta do plano espiritual.
Os antropólogos chamam essa prática de apropriação, ou seja, tomar algo que pertence a outro contexto e usar com objetivos próprios. A escala em que essas apropriações estão acontecendo e os caminhos que elas tomam, porém, já estão causando preocupações junto aos cientistas.
![]() |
| 'Quando entrarmos num buraco negro sairemos num buraco branco em outro lugar. Que lugar seria este? Fica claro que estaríamos penetrando numa região próxima ao reino Virginal' in Teologia Umbandista |
No meio científico, as apropriações costumam gerar uma chuva de críticas. 'São abusos. Misturam linguagens criadas para explicar coisas totalmente diferentes. É como tentar usar taquigrafia para fazer cálculo integral: não faz sentido', compara Maria Cristina Batoni Abdalla, física da Unesp (Universidade Estadual Paulista) especialista em mecânica quântica. 'Esse uso é ruim porque se aproveita do desconhecimento das pessoas, gera confusão e acaba servindo aos interesses comerciais e religiosos de indivíduos que não conhecem ciência', ataca o físico Marcelo Gleiser, o autor de divulgação científica mais lido no país. 'O esforço para associar a física ao misticismo ou a terapias sem comprovação experimental não tem base científica', explica o físico e filósofo Osvaldo Pessoa Jr., da USP. 'E neste último caso normalmente está associado a maneiras ilegítimas de ganhar dinheiro.'
A física dos cristais
Posições semelhantes são encontradas fora da academia também. 'Isso é pseudociência', diz o médico e pesquisador Paulo Farber, presidente da Associação Brasileira de Medicina Complementar. 'Essas aproximações são indevidas e nós orientamos nossos associados a não fazê-las', afirma o presidente do Sindicato dos Terapeutas Holísticos, Henrique Vieira Filho.
Posições semelhantes são encontradas fora da academia também. 'Isso é pseudociência', diz o médico e pesquisador Paulo Farber, presidente da Associação Brasileira de Medicina Complementar. 'Essas aproximações são indevidas e nós orientamos nossos associados a não fazê-las', afirma o presidente do Sindicato dos Terapeutas Holísticos, Henrique Vieira Filho.
Entre a população leiga, porém, o quadro é oposto, e a visão crítica tem pouco espaço. 'O que ganha destaque na mídia são justamente as aproximações entre a ciência e o universo alternativo', diz a antropóloga Fátima Tavares, estudiosa do universo Nova Era da Universidade Federal de Juiz de Fora. Ela explica que as apropriações acontecem há séculos, e parecem ser uma característica do relacionamento da sociedade com a ciência. Com o crescimento da Nova Era a partir dos anos 1980, a prática ganhou cada vez mais espaço.
As apropriações atendem a todo tipo de propósito: ampliam o debate filosófico, sugerem explicações para práticas terapêuticas que não se sabe como funcionam, permitem que espertos ganhem dinheiro enganando incautos e até ajudam a reforçar a possibilidade de fé transcendente num mundo que é cada vez menos misterioso e mais racional. 'É como a brincadeira do telefone sem fio', explica Fátima Tavares. 'As pessoas captam as idéias da ciência de maneira fragmentada, fazem uma adaptação para seu uso particular e depois passam o discurso para frente.'
O uso da ciência para atender a tantos interesses diferentes gera, no mínimo, algum grau de confusão. O físico George Matsas conta como recebeu certa vez em sua sala da Unesp uma jovem que queria tirar uma dúvida. 'Ela propôs a seguinte questão: se a teoria da relatividade diz que tudo é relativo e a mecânica quântica garante que tudo é incerto, como conciliar as duas coisas para explicar o poder de cura dos cristais?' Estarrecido com uma pergunta em que os conceitos científicos são usados sem fazer nenhum sentido, a reação de Matsas foi um espanto constrangido.
Um breve passeio pelo universo das apropriações é suficiente para despertar um espanto semelhante ao que Matsas sentiu. Alguns exemplos dignos de menção são o uso da teoria das supercordas para explicar o símbolo esotérico cabalista da árvore da vida, a afirmação de que os buracos negros são a porta de entrada para o plano espiritual da umbanda e a sugestão de que o DNA seria capaz de 'registrar' a Aids e assim a doença poderia ser transmitida às gerações futuras por essa via. De longe, porém, a idéia científica mais 'adaptada' é a mecânica quântica, que já foi evocada para explicar, entre muitos outros, até a astrologia, o tarô e o Tao.
Longe das energias
Para entender como a jovem chegou a imaginar que um cientista pudesse esclarecer a cura com cristais, é preciso seguir uma seqüência de problemas de informação. O segmento das terapias alternativas ou holísticas é onde essas idéias mais circulam. 'É comum as leis da ciência serem apresentadas nos cursos sobre técnicas holísticas, muitas vezes com pouco entendimento do que elas realmente significam', diz Lourivaldo Rocha, da Arjuna, uma livraria esotérica de São Paulo que abriga semanalmente palestras sobre os mais diversos tópicos esotéricos.
São Paulo possui até uma rádio de programação esotérica 24 horas por dia, na qual volta e meia é possível ouvir seus comunicadores mencionando a mecânica quântica e as últimas descobertas da ciência. A popularidade do uso das aproximações é reconhecida pelo próprio Henrique Vieira Filho. 'Mas nosso sindicato não tem como impedir que isso aconteça.'
A terapeuta corporal Priscila de Oliveira às vezes buscava essas aproximações como forma de se relacionar com certos clientes. 'O terapeuta usa os conceitos para dar mais segurança ao paciente e para tentar dar a idéia de que o mundo não é só isso que a gente vê', conta. Ao mesmo tempo, devido à leitura de livros e à conversa com amigos que eram cientistas e espiritualistas, ela tinha a crença de que a ciência realmente estava próxima de constatar as 'energias sutis'. A descoberta dos livros de divulgação científica, porém, fez com que percebesse a diferença. 'A pesquisa científica vai numa direção totalmente diferente do que eu achava.'
A mecânica quântica é o recurso favorito dos terapeutas. Eles acreditam que os estranhos fenômenos descritos pela teoria (veja quadro na página 29) criam uma brecha para uma visão de mundo em que suas práticas poderiam ser, de alguma forma, explicadas. Mas será que essa brecha justifica tal adaptação? 'Não dá para dizer que a mecânica quântica explica o funcionamento de uma prática complementar sem exibir testes que comprovem isso', diz Paulo Farber, pioneiro dos estudos em acupuntura médica no país. 'Inventar teorias não vai explicar as reais razões pelas quais os tratamentos complementares podem funcionar', observa. 'Não é mais simples dizermos que algo funciona embora não saibamos por que, se for este o caso?'
|
Mas de onde os terapeutas tiram essas idéias? Há hoje uma vasta literatura em que essas apropriações são apresentadas com verniz filosófico. Esses livros se apresentam como defensores do pensamento holístico. Essa corrente começou a ganhar espaço nos anos 1970, a partir dos escritos do físico austríaco Fritjof Capra. Capra se inspirou nas idéias de cientistas como Niels Bohr, Werner Heisenberg e David Bohm, entre outros, para sugerir que os resultados gerados pela física do século 20 se aproximavam dos conceitos do misticismo oriental.
E foi além: sugeriu que o método científico clássico, que procura decompor os fenômenos em partes menores para compreendê-los (um exemplo é o uso da idéia de átomo para explicar o comportamento da matéria) não era possível. Segundo ele, a natureza de um objeto é maior do que a soma de suas partes. Daí o nome holismo, pois a palavra 'holos', em grego, quer dizer 'totalidade'.
Em geral, os livros holísticos reproduzem as idéias de Capra. Começam por uma história da ciência com mais ou menos detalhes. Contam como, a partir do século 17, cristalizou-se entre os cientistas a imagem de um universo onde todos os fenômenos se comportariam de maneira semelhante a um relógio, o chamado pensamento cartesiano.
.
.
Uma pergunta, 50 respostas
A seguir dizem que esse pensamento viveu seus momentos de glória até o início do século 20, quando o desenvolvimento da mecânica quântica teria destruído suas bases e lançado as fundações de uma nova ciência, a qual, chegam a dizer alguns, já está a pleno vapor, o que não é verdade. A partir daqui, os livros se diferenciam. Uns enfatizam a proximidade dessa nova ciência com a psicologia ou as antigas tradições místicas. Outros argumentam que a mente tem o poder de moldar objetos materiais. Há quem prefira explicar a transmissão de pensamento ou o plano espiritual, e por aí vai.
Esses autores alegam não ter a intenção de fazer divulgação científica. O físico José Pedro Andreeta, da USP, autor de 'Quem se Atreve a Ter Certeza?', explica que não fez um livro ortodoxo. 'Queremos ir além e mostrar as possíveis conseqüências das teorias físicas.' Já a psicóloga junguiana Raïssa Cavalcanti, autora de 'O Retorno do Sagrado', diz que queria 'fazer uma reunião do conhecimento no século 20'. Ou seja, esses dois livros (como tantos outros semelhantes) parecem se propor a fazer uma livre extrapolação filosófica a partir dos resultados e das idéias da ciência.
Porém, uma vez que neles se transmite ao leitor uma quantidade respeitável de informações científicas sobre as quais os autores vão fundamentar suas próprias idéias, é possível fazer algumas críticas à maneira pela qual essas informações são apresentadas. Em muitos casos, por exemplo, não fica claro para o leitor onde é que termina a ciência e onde começa a interpretação filosófica pessoal. Um segundo problema é apresentar temas que são extremamente polêmicos dentro da própria academia como se ao redor deles houvesse um consenso que absolutamente não existe, numa simplificação que pode ser enganosa.
O melhor exemplo, mais uma vez, envolve a teoria quântica. Em síntese, teorias físicas são modelos matemáticos criados para descrever comportamentos da natureza. A quântica, por exemplo, explica fenômenos nos níveis atômico e subatômico. Ocorre que, durante o desenvolvimento da teoria, os cientistas observaram fenômenos tão surpreendentes que vários questionamentos surgiram. Assim, embora os modelos matemáticos criados pelos cientistas tenham se revelado altamente eficazes, ficou em aberto uma questão filosófica importante: como conceber uma imagem do mundo que possa explicar comportamentos tão estranhos? Ou será que a própria teoria quântica é que precisa ser aperfeiçoada, de forma a fornecer uma visão mais próxima das nossas crenças intuitivas?
Já na década de 1920 esse debate dava pano para manga. No pós-guerra os cientistas adotaram a atitude pragmática de pôr um pouco de lado tais questões e se concentrar nas pesquisas. 'Nos últimos 30 anos cresceu o interesse em torno do debate filosófico, e hoje existem pelo menos 50 interpretações diferentes', explica Pessoa Jr. Infelizmente, essas profundas divisões são ignoradas em muitos livros holísticos. 'O Retorno do Sagrado', por exemplo, diz coisas como 'o desenvolvimento da física quântica levou a ciência a abandonar o dualismo mente-corpo, sujeito-objeto, espaço-tempo, energia-matéria, matéria-espírito [...]' e 'a cosmovisão que se originou da física quântica influenciou de maneira profunda todas as áreas do conhecimento'.
A autora argumenta que escreve para defender uma posição e que tem o direito de citar apenas os autores com os quais sente identificação e ignorar todos os demais. Mas será que faz sentido fazer generalizações usando termos como 'a ciência' ou 'a cosmovisão que se originou da física quântica' quando o que há em andamento é uma discussão vasta o suficiente para abrigar 50 posições diferentes? O leitor que tire suas conclusões. Andreeta e Raïssa dizem condenar o uso da teoria quântica feito pelos terapeutas holísticos. É possível especular, porém, se os problemas apontados aqui não estão entre os motivos que levaram a jovem estudiosa de cristais a buscar os conselhos de Matsas.
.
.
Do cérebro ao átomo
Outra boa razão para evitar generalizações vem do fato de que o pensamento holístico é exceção dentro da atividade científica. A pesquisa está chegando aos detalhes da matéria. A próxima revolução na informática envolve a manipulação dessa mesma matéria em escalas quase subatômicas. O mapeamento de genomas identifica informações no nível de proteína. As humanidades enfrentam o desafio da psicologia evolutiva e da genética comportamental. Práticas religiosas como a meditação são estudadas por neurocientistas que atribuem a sensação de elevação ao acréscimo de atividade em certas regiões do cérebro.
Pode não ser a ciência que muitos gostariam de ter, mas é a que temos. Não faz sentido exigir dela respostas que não possui. Mas sempre é bom lembrar que ela ainda não está terminada, e nunca estará.
Para ler
• 'O que Sabemos sobre o Universo', Richard Morris. Editora Jorge. 2001
• 'O Tao da Física', Fritjof Capra. Cultrix. 1987
• 'O Fim da Divindade Mecânica', John David Ebert. Editora Teosófica. 2004
• 'Quem se Atreve a Ter Certeza?', José Pedro Andreeta. Mercuryo. 2004
• 'Conceitos de Física Quântica', Osvaldo Pessoa Jr. Livraria da Física. 2003
• 'Ciências Versus Pseudociências', Paulo Lee. Editora Gráfica Expoente. 2003
Outra boa razão para evitar generalizações vem do fato de que o pensamento holístico é exceção dentro da atividade científica. A pesquisa está chegando aos detalhes da matéria. A próxima revolução na informática envolve a manipulação dessa mesma matéria em escalas quase subatômicas. O mapeamento de genomas identifica informações no nível de proteína. As humanidades enfrentam o desafio da psicologia evolutiva e da genética comportamental. Práticas religiosas como a meditação são estudadas por neurocientistas que atribuem a sensação de elevação ao acréscimo de atividade em certas regiões do cérebro.
Pode não ser a ciência que muitos gostariam de ter, mas é a que temos. Não faz sentido exigir dela respostas que não possui. Mas sempre é bom lembrar que ela ainda não está terminada, e nunca estará.
Para ler
• 'O que Sabemos sobre o Universo', Richard Morris. Editora Jorge. 2001
• 'O Tao da Física', Fritjof Capra. Cultrix. 1987
• 'O Fim da Divindade Mecânica', John David Ebert. Editora Teosófica. 2004
• 'Quem se Atreve a Ter Certeza?', José Pedro Andreeta. Mercuryo. 2004
• 'Conceitos de Física Quântica', Osvaldo Pessoa Jr. Livraria da Física. 2003
• 'Ciências Versus Pseudociências', Paulo Lee. Editora Gráfica Expoente. 2003
As relativas frases de Einstein

Pablo Nogueira

Pablo Nogueira
| Muitas das frases e idéias atribuídas a Albert Einstein não reproduzem corretamente seu pensamento. Veja algumas distorções comentadas pelo físico Carlos Alberto dos Santos, estudioso da vida do cientista • Einstein teria dito 'A emoção mais bonita pela qual podemos passar é a mística' Na frase original ele usou a palavra 'mistério', não 'mística'. • Einstein teria dito 'Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio. E eis que a verdade se revela' Não há registro desta frase nas biografias. • Einstein era profundamente religioso Na verdade, ele tinha uma relação conturbada com a religião. Acreditava no que chamava de Deus cósmico. Mas não teve vida religiosa e brigou tanto com ateus quanto com religiosos. • Einstein provou que tudo é energia Isso é uma adaptação poética. Ele não disse que massa e energia são a mesma coisa, e sim que a massa é o conteúdo energético. Nada afirmou sobre a natureza da matéria. Não dá para extrapolar e dizer que tudo é energia. Mas esse é um tema que ainda hoje divide os cientistas. • A Teoria da Relatividade diz que tudo no Universo depende do ponto de vista Einstein abordou contextos bastante específicos e situações limitadas. Dizer que isso é válido em todas as situações é um exagero. Exemplos extraídos de livros, artigos de revista e sites |



Nenhum comentário:
Postar um comentário