
Praia de Santa Bárbara, 1933
Certa noite em Berlim, Einstein e a mulher estavam num jantar quando um convidado expressou sua crença na astrologia. Einstein ridicularizou a idéia como superstição pura. Outro convidado entrou na conversa e passou a insultar a religião. A crença em Deus, insistiu ele, e uma espécie de ficção, também.
Nesse ponto, o anfitrião tentou calá-lo mencionando o fato de que até Einstein nutria crenças religiosas. “Não é possível!", disse o convidado cético, virando-se para Einstein a fim de perguntar se ele era, de fato, religioso.
“Sim, pode-se dizer que sim", respondeu Einstein calmamente. Tente penetrar, com nossos limitados meios, nos segredos da natureza, e descobrirá por trás de todas as leis e conexões discerníveis, permanece algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração por essa força além de qualquer coisa que podemos compreender é a minha religião. Nesse sentido eu sou, de fato, religioso."
Quando criança, Einstein passou por uma fase de êxtase religioso; depois se rebelou contra ela. Nas três décadas seguintes, em geral não se pronunciava muito sobre esse tópico. Mas, ao chegar aos cinqüenta anos, começou a articular com mais clareza - em vários ensaios, entrevistas e cartas - sua apreciação cada vez mais profunda da sua herança judaica e, em separado, sua crença em Deus, embora se tratasse de um conceito bastante impessoal e deista de Deus.
Decerto, havia muitas razões para isso, alem da propensão natural, que costuma ocorrer por volta dos cinqüenta anos, para refletir sobre a eternidade. A afinidade que ele sentia por outros judeus, em virtude da continua opressão anti-semita, despertou alguns de seus sentimentos religiosos. Mas, ao que tudo indica, as convicções dele provinham sobretudo do sentimento de deslumbramento com a ordem transcendental que descobriu por meio de seu trabalho científico.
Seja apreciando a beleza de suas equações sobre o campo gravitacional, seja rejeitando a incerteza da mecânica quântica, Einstein demonstrava profunda fé na ordem do universo. Foi o que serviu de base para sua visão cientifica e também para sua visão religiosa. "A mais elevada satisfação de um cientista", escreveu ele em 1929, e chegar a compreensão "de que o próprio Deus não poderia ter organizado essas conexões de nenhuma outra maneira a não ser da maneira que realmente existe, assim como não estaria em Seu poder fazer com que 4 fosse um numero primo."
Para Einstein, como para a maioria das pessoas, a crença em algo maior que ele mesmo se tomou um sentimento definidor. Produzia nele uma mistura de confiança e humildade, com um toque de doce simplicidade. Dada sua pré-disposição para ser autocentrado, essas eram graças positivas. Juntamente com seu senso de humor e sua autoconsciência que beirava a timidez, essas qualidades ajudaram a evitar a presunção e o pedantismo que poderiam ter se apossado da mente mais famosa do mundo.
Seus sentimentos religiosos de deslumbramento perante o universo e também humildade formaram a base do seu senso de justiça social. Esta o levava detestar as pompas da hierarquia e da distinção de classes, a fugir do consumo e do materialismo, e a se esforçar em prol dos refugiados e dos oprimidos.
Pouco depois de completar cinqüenta anos, Einstein deu uma notável entrevista em que revelou mais sobre o seu pensamento religioso do que jamais fizera. A entrevista foi concedida a um poeta e propagandista, pomposo porem adulador. chamado George Sylvester Viereck. Nascido na Alemanha, Viereck emigrou para os Estados Unidos quando criança e passou o resto da vida escrevendo poemas de um erotismo exuberante, entrevistando grandes homens e expressando seu complexo amor por sua pátria.
Depois de conseguir entrevistar celebridades que iam desde Freud ate Hitler e o Kaiser, posteriormente publicado num livro intitulado Visões de grandes homens, ele conseguiu marcar uma conversa com Einstein em seu apartamento em Berlim. Lá, Elsa serviu-lhe suco de framboesa e salada de frutas; Os dois homens então subiram para o escritório de eremita de Einstein. Por razões que não ficaram bem claras, Einstein supôs que Viereck fosse judeu. Na verdade, Viereck tinha orgulho de descender da família do Kaiser; mais tarde, tornou-se simpatizante do nazismo e foi preso nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra por fazer propaganda a favor da Alemanha.
Viereck começou indagando a Einstein se ele se considerava alemão ou judeu. "E possível ser as duas coisas", respondeu Einstein. "O nacionalismo e uma doença infantil, o sarampo da humanidade."
Os judeus deveriam tentar se assimilar? "Nos, judeus, temos procurado com demasiado empenho sacrificar nossas idiossincrasias a fim de nos conformarmos com a norma."
Até que ponto o senhor é influenciado pelo cristianismo? "Quando criança, recebi instrução tanto sobre a Bíblia como sobre o Talmude. Sou judeu, mas sou fascinado pela luminosa figura do Nazareno."
O senhor aceita a existência histórica de Jesus? "Sem duvida! Quem pode ler os Evangelhos sem sentir a presença real de Jesus? Sua personalidade pulsa em cada palavra. Não há nenhum mito que esteja imbuído de tanta vida."
O senhor acredita em Deus?
Não sou ateu. O problema aí envolvido é demasiado vasto para nossas mentes limitadas. Estamos na mesma situação de uma criancinha que entra numa biblioteca repleta de livros em muitas línguas. A criança a sabe que alguém deve ter escrito esses livros. Ela não sabe de que maneira, nem compreende os idiomas em que foram escritos. A criança tem uma forte suspeita de que há uma ordem misteriosa na organização dos livros, mas não sabe qual é essa ordem. E essa, parece-me, a atitude do ser humano, mesmo do mais inteligente, em relação a Deus. Vemos um universo maravilhosamente organizado e que obedece a certas leis; mas compreendemos essas leis apenas muito vagamente.
Seria esse um conceito judaico de Deus? "Sou determinista. Não acredito no livre-arbítrio. Os judeus acreditam no livre-arbítrio. Eles acreditam que cada homem faz sua própria vida. Eu rejeito essa doutrina. Nesse aspecto, não sou judeu."
Será esse o Deus de Espinosa? "Sou fascinado pelo panteísmo de Espinosa, mas admiro ainda mais sua contribuição para o pensamento moderno, pois ele foi o primeiro filósofo a lidar com o corpo e a alma como uma só entidade, e não como duas coisas separadas."
Como chegou às suas idéias? "Sou artista o suficiente para inspirar-me livremente na minha imaginação. A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação abrange o mundo inteiro."
O senhor acredita na imortalidade? "Não. E uma vida e suficiente para mim."
Einstein tentou expressar esses sentimentos claramente, tanto para si mesmo como para todos aqueles que desejavam obter dele uma resposta simples acerca da sua fé. Assim, no verão de 1930, entre seus passeios de barco e suas reflexões em Caputh, escreveu um credo, "No que acredito". Concluía com uma explicação sobre o que tinha em mente quando dizia ser religioso:
A emoção mais bela que podemos experimentar é o sentimento do mistério. E a emoção fundamental que esta no berço de toda a verdadeira arte e ciência. Aquele que desconhece essa emoção, aquele que não consegue mais se maravilhar, ficar arrebatado pela admiração, é como se estivesse morto; e uma vela que foi apagada. Sentir que por trás de qualquer coisa que possa ser experimentada ha algo que nossa mente não consegue captar, algo cuja beleza e solenidade nos atinge apenas indiretamente: essa é a religiosidade. Nesse sentido, e apenas nesse sentido, sou devotamente religioso.'
Considerado evocativo, ate inspirador, pelo publico, 0 texto foi reimpresso repetidas vezes e traduzido para as mais diversas línguas. Mesmo assim -.o que não é de surpreender -, não satisfez os que desejavam uma resposta simples e direta a pergunta: "O senhor acredita em Deus?". Assim, tentar levar Einstein a responder a essa pergunta de modo conciso passou a substituir o frenesi anterior de tentar leva-lo a explicar a relatividade numa só frase.
Um banqueiro do Colorado escreveu-lhe dizendo que já conseguira obter respostas de 24 ganhadores do premio Nobel a pergunta "O senhor acredita em Deus?", e pedia a Einstein que também respondesse. "Não consigo conceber um Deus pessoal que tenha influencia direta nas ações dos indivíduos ou que julgue as criaturas da sua própria criação", rabiscou Einstein em resposta. "Minha religiosidade consiste numa humilde admiração pelo espírito infinitamente superior que se revela no pouco que conseguimos compreender sobre o mundo passível de ser conhecido. Essa convicção profundamente emocional da presença de um poder superior racional que se revela nesse universo incompreensível forma a minha idéia de Deus."
Uma menina da sexta serie de uma escola dominical de Nova York fez a pergunta de uma forma ligeiramente diferente. "Os cientistas rezam?", indagou ela. Einstein levou-a a serio. “A pesquisa cientifica baseia-se na idéia de que tudo o que acontece e determinado por leis da natureza, e isso também vale para as ações das pessoas", explicou. "Por esse motivo, um cientista não se sentiria inclinado a acreditar que os fatos podem ser influenciados por uma oração, isto é, por um desejo dirigido a um Ser sobrenatural."
Isso não significava, contudo, que não existisse nenhum ser Todo-Poderoso, nenhum espírito maior que nos mesmos. Ele continuou a explicar a garota: "Qualquer pessoa que se envolve seriamente no trabalho cientifico acaba convencida de que existe um espírito que se manifesta nas leis do universo – um espírito vastamente superior ao espírito humano, em face do qual nos, com nossos modestos poderes, temos de nos sentir humildes. Desse modo, a pesquisa cientifica leva a um sentimento religioso bem especial, que e, de fato, muito diferente da religiosidade de urna pessoa mais ingênua".'
Para alguns, apenas uma crença bem clara num Deus pessoal, que controla nossa vida diária, serviria como resposta satisfatória, e as idéias de Einstein sobre um espírito cósmico impessoal, assim como suas teorias da relatividade, mereciam ser desmascaradas. "Duvido seriamente que 0 próprio Einstein saiba aonde quer chegar", disse William Henry O'Connell, cardeal de Boston. Mas uma coisa parecia clara: era algo sem Deus. "0 resultado de todas essas duvidas e especulações nebulosas acerca do tempo e do espaço e um manto sob o qual se esconde o fantasma assustador do ateísmo."
Esse ataque público de um cardeal motivou o rabino Herbert S. Goldstein, destacado líder dos judeus ortodoxos de Nova York, a enviar um telegrama bastante direto: "O senhor acredita em Deus? Ponto. Resposta paga. 50 palavras". Einstein usou apenas a metade desse numero para escrever 0 que se tornou a versão mais famosa de uma resposta que ele deu muitas vezes:
“Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia bem-ordenada de tudo o que existe; mas não acredito num Deus que se ocupe com o destino e as ações da humanidade".
A resposta de Einstein não foi confortadora para todos. Alguns judeus religiosos, por exemplo, observaram que Espinosa fora excomungado da comunidade judaica de Amsterdã em razão dessas convicções, e também fora condena, do pela Igreja Católica, por garantia. "O cardeal O'Connell teria feito bem em não atacar a teoria de Einstein", disse um rabino do Bronx. “E Einstein teria feito melhor em não proclamar sua descrença num Deus que se ocupa com o destino e as ações dos indivíduos. Os dois deram opiniões sobre áreas fora da sua jurisdição”.
Mesmo assim, a maioria das pessoas ficou satisfeita, concordasse plenamente ou não, pois conseguia compreender o que ele queria dizer. A idéia de um Deus impessoal, cuja mão se reflete na gloria da Criação mas que não se imiscui na vida diária do ser humano, faz parte de uma respeitável tradição tanto na Europa como nos Estados Unidos. Ela se encontra em alguns dos filósofos prediletos de Einstein e, de modo geral, está de acordo com as convicções religiosas de muitos dos fundadores dos Estados Unidos, como Jefferson e Franklin.
Alguns crentes religiosos descartam as freqüentes invocações feitas por Einstein de Deus como mera figura de linguagem. O mesmo fazem alguns não crentes. Havia muitas expressões que ele usava, algumas jocosas, que iam desde der Herrgott (O senhor Deus) até der Alte (O Velho). Mas não era do estilo de Einstein falar de modo insincero a fim de parecer que estava se conformando a norma; muito pelo contrario. Assim, nós deveríamos lhe dar a honra de levarmos a sério suas palavras quando ele insiste, repetidas vezes, que essas expressões tão batidas não eram uma evasiva sutil, uma maneira semântica de disfarçar o fato de que ele era, na verdade, ateu.
A vida toda Einstein foi coerente ao rebater a acusação de ser ateu. "Ha pessoas que dizem que não existe Deus", disse ele a um amigo. "Mas o que me deixa mais zangado e que elas citam meu nome para apoiar essas idéias."
Diferentemente de Sigmund Freud ou Bertrand Russell ou George Bernard Shaw, Einstein nunca sentiu 0 impulso de denegrir os que acreditam em Deus; em vez disso, costumava denegrir os ateus. "0 que me separa da maioria dos chamados ateus e um sentimento de total humildade com os segredos inatingíveis da harmonia do cosmos", explicou ele.'
De fato, Einstein costumava ser mais critico em relação aos que ridicularizavam a religião, e que pareciam carecer de humildade e do senso de deslumbramento, do que em relação aos fieis. "Os ateus fanáticos", explicou ele numa carta, "são como escravos que continuam sentindo o peso das correntes que jogaram fora depois de muita luta. São criaturas que - em seu rancor contra a religião tradicional como sendo o ópio das massas' - não conseguem ouvir a musica das esferas."
Einstein mais tarde se envolveu numa troca de idéias sobre esse tópico com um guarda-marinha das forças navais americanas a quem não conhecia pessoalmente. Era verdade, indagou o marinheiro, que Einstein fora convertido por um padre jesuíta e passara a acreditar em Deus? Absurdo, respondeu Einstein. Continuou dizendo que via a crença num Deus que era uma figura paternal como resultado de "analogias infantis". será que Einstein lhe permitiria, perguntou o marinheiro, dar a resposta dele em seus debates com os colegas do navio que eram mais religiosos? Einstein advertiu-o de que não simplificasse em demasia. ''Você pode me chamar de agnóstico, mas eu não compartilho daquele espírito de cruzada do ateu profissional, cujo fervor se deve mais a um doloroso ate de libertação dos grilhões da doutrinação religiosa recebida na juventude", explicou. "Prefiro a atitude de humildade que corresponde a debilidade da nossa compreensão intelectual da natureza e do nosso próprio ser".
De que modo esse instinto religioso se relacionava a sua ciência? Para Einstein, a beleza da sua fé consistia no fato de que ela era a essência e a inspiração do seu trabalho cientifico, e não algo que entrasse em conflito com este. "O sentimento religioso cósmico", disse ele, "é o motivo mais forte e mais nobre da pesquisa cientifica."
Einstein mais tarde explicou como via a relação entre ciência e religião numa conferencia sobre esse tópico no Seminário Teológico Unionista, em Nova York. O reino da ciência, disse, consiste em descobrir com exatidão o que acontece, mas não em avaliar os pensamentos e as ações humanas sobre o que deveria acontecer. A religião tem o mandato inverso. E, no entanto, esses dois tipos de esforços por vezes atuam juntos. “A ciência só pode ser criada pelos que estão totalmente imbuídos pela aspiração a verdade e a compreensão", disse ele. "Contudo, esse sentimento brota da esfera da religião."
Essa fala saiu na primeira pagina dos jornais, e a conclusão de Einstein, saborosa e concisa, ganhou fama: “A situação pode ser expressa por uma imagem: a ciência sem religião é manca; a religião sem ciência e cega".
Mas havia um conceito religioso, prosseguiu Einstein, que a ciência não ia aceitar: uma divindade capaz de se imiscuir a seu bel-prazer nos acontecimentos da sua criação ou na vida das suas criaturas. “A causa principal dos atuais conflitos entre as esferas da religião e da ciência consiste nesse conceito de um Deus pessoal", argumentou ele. Os cientistas buscam revelar as leis imutáveis que governam a realidade e, ao faze-lo, tem de rejeitar a noção de que a vontade divina, é, alias, também a vontade humana, desempenha um papel que violaria essa causalidade cósmica.
Essa crença no determinismo causal, inerente a visão cientifica de Einstein, entrava em conflito não só com o conceito de um Deus pessoal. Era ainda, ao menos na mente de Einstein, incompatível com o livre-arbítrio humano. Embora fosse um homem profundamente moral, por sua crença no determinismo estrito julgava difícil aceitar a idéia da escolha moral e da responsabilidade individual que se encontra no cerne da maioria dos sistemas éticos.
Os teólogos judeus, bem como os teólogos cristãos, de maneira geral sempre acreditaram que as pessoas tem livre-arbítrio e são responsáveis por seus Elas tem até a liberdade, como narra a Bíblia, de optar por desafiar os mandamentos de Deus, embora isso pareça entrar em conflito com a crença de que e onisciente e todo-poderoso.
Einstein, por outro lado, acreditava, como Espinosa, que as ações de uma pessoa eram predeterminadas, assim como as de uma bola de bilhar, um planeta ou uma estrela. "Os seres humanos, em seus pensamentos, sentimentos e atos, são livres, mas estão presos pela causalidade do mesmo modo que as estrela em seus movimentos", afirmou Einstein em 1932, numa declaração a Sociedade Espinosa.
As ações humanas são determinadas, para lá do seu controle, tanto por leis como por leis psicológicas, acreditava. Tal conceito ele extraiu também mas leituras de Schopenhauer, a quem atribuiu, no credo de 1930, "No que acredito", uma máxima deste teor:
Não acredito, em absoluto, no livre-arbítrio no sentido filosófico. Cada pessoa age não só sob pressão das compulsões externas, mas também de acordo com as necessidades internas. O dito de Schopenhauer: "Um homem pode fazer o que deseja, mas não pode mandar nos seus desejos” têm sido uma verdadeira inspiração para mim desde a juventude; e um consolo contínuo ante as dificuldades da vida, tanto minhas como alheias, e uma fonte infalível de tolerância.”
O senhor acredita, perguntaram certa vez a Einstein, que o ser humano é um agente livre? "Não, sou determinista", respondeu ele. “Tudo já está determinado, tanto o inicio como 0 fim, por forças sobre as quais não temos nenhum controle. Tudo está determinado, tanto para o inseto como para a estrela. Seres humanos, vegetais, poeira cósmica, todos nos dançamos conforme uma música misteriosa, entoada a distancia por um músico invisível."
Essa atitude deixava consternados alguns amigos, como Max Born, o qual julgava que ela destruía por completo os alicerces da moralidade humana. "Não consigo compreender como você pode combinar um universo inteiramente mecanicista com a liberdade do individuo ético", escreveu ele a Einstein. "Para mim, um mundo determinista e absolutamente abominável. Talvez você tenha razão e o mundo seja, de fato, como você diz. Mas, no momento, ele não parece ser assim na física - muito menos no resto do mundo."
Para Born, a incerteza da física quântica oferece uma saída para esse dilema. Do mesmo modo que alguns filósofos da época, ele se apegou a indeterminação inerente a mecânica quântica para resolver- "a discrepância entre a liberdade ética e as leis naturais estritas". Einstein reconheceu que a mecânica quântica questionava o determinismo estrito, mas disse a Born que continuava acreditando neste, tanto na área das açõs pessoais como na física.
Born explicou a questão a sua nervosa mulher, Hedwig, sempre ansiosa para discutir as idéias de Einstein. Ela disse a Einstein que, assim como ele, também era "incapaz de acreditar num Deus que joga dados"'. Noutras palavras “diferentemente do marido, ela rejeitava a visão da mecânica quântica de que o universo se baseia em incertezas e probabilidades”. Mas, acrescentou Hedwig. “tampouco consigo imaginar que o senhor acredite - como me disse Max - que o seu conceito do ‘predomínio absoluto das leis’ significa que tudo é predeterminado -, por exemplo, se eu VOU ou não VOU mandar vacinar meus filhos-. Isso significaria, ressaltou ela, o fim de toda a ética”.
Na filosofia de Einstein, a forma de resolver essa questão era considerado livre-arbítrio algo útil, e ate necessário, para uma sociedade civilizada, pois levava as pessoas a assumir a responsabilidade por seus atos. Agir como se cada um fosse responsável por seus atos teria o efeito, tanto psicológico como pratico, de estimular as pessoas a agir de maneira mais responsável. "Sou compelido a agir como se existisse o livre-arbítrio", explicou ele, "já que, se desejo viver numa sociedade civilizada, devo agir de modo responsável." Podia ate responsabilizar as pessoas por suas boas e mas ações, já que essa é uma abordagem pragmática e sensata para a vida; 'mas ao mesmo tempo continuava a acreditar intelectualmente que as ações de cada um são predeterminadas. "Sei que, filosoficamente, um assassino não é responsável por seu crime", disse, "mas prefiro não tomar chá com ele."
Em defesa de Einstein, bem como de Max e Hedwig Born, deve-se notar que os filósofos, em todas as épocas, sempre lutaram, as vezes de maneira canhestra e sem grande sucesso, para reconciliar o livre-arbítrio com o determinismo e com um Deus onisciente. Se Einstein teve maior ou menor habilidade que outros ao lidar com esse nó, há um fato notório que deve ser observado: ele foi capaz de desenvolver e praticar uma forte moralidade pessoal, ao menos em relação a humanidade em geral ainda que nem sempre em relação a membros da sua família, que não foi prejudicada por todas essas especulações filosóficas insolúveis. "O empreendimento humano mais importante e a luta pela moralidade em nossas ações", escreveu ele a um ministro protestante do Brooklyn. "Nosso equilíbrio interno e até nossa própria existência dependem disso. Só a moralidade em nossas ações pode dar beleza e dignidade a vida: o alicerce dessa moralidade, acreditava ele, consistia em elevar-se acima do "meramente pessoal" e viver de uma forma que beneficiasse a humanidade.
Em certas ocasiões, era capaz de ser insensível com os mais próximos, o que mostra que, como o restante de nós, seres humanos, de também tinha suas falhas. Porém, mais que a maioria das pessoas, dedicou-se sinceramente, e por vezes corajosamente, a ações que transcendiam os desejos egoístas, a fim de incentivar o progresso humano e a preservação das liberdades individuais.
Era, de modo geral, um homem generoso, de gênio bom, gentil e despretensioso. Em 1922, quando partiu para Japão com Elsa, aconselhou as filhas dela sobre como levar uma vida moral. "Usem pouco para vocês mesmas", disse, "mas dêem muito aos outros."
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