17 de abr. de 2009

Caso de índia ianomâmi deficiente gera crise institucional no Amazonas

16/04/2009 - 20h30

A internação de uma índia da etnia ianomâmi em um hospital de Manaus está criando uma crise institucional no Amazonas. Os pais da criança querem retirá-la do hospital e levá-la para a aldeia. Nesta quinta-feira (16), porém, a Justiça Estadual concedeu uma ordem para que a menina, vítima de hidrocefalia (condição na qual há líquido cérebro-espinhal em excesso ao redor do cérebro e da medula espinhal), permaneça no hospital até ter alta. De outro lado, a Fundação Nacional do Índio (Funai) ameaça recorrer da decisão para garantir os direitos dos pais da menina. E em meio a tudo isso está o Conselho Tutelar, que teme que a criança seja sacrificada pelos pais quando retornar à aldeia, como parte de um ritual da etnia.

A criança chegou ao hospital levada pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e da ONG Serviço e Cooperação com o povo Yanomami (Secoya), que faz serviço de atendimento em saúde para os índios desta etnia.

A crise em torno da menina começou no início desta semana. Na última terça-feira (14), os pais da pequena ianomâmi de um ano e meio de idade foram ao Hospital Infantil Drº Fajardo, em Manaus, para tentar retirá-la do local. Ela está internada desde março com hidrocefalia, pneumonia, tuberculose e desnutrição.

Polêmica no Amazonas

  • Alberto César Araújo/AE

    Enfermeira cuida de bebê ianomâmi que está internada com hidrocefalia, tuberculose e pneumonia em hospital infantil de Manaus. O Conselho Tutelar da capital amazonense vai protocolar no Ministério Público Estadual pedido de suspensão dos direitos dos pais da criança, depois que três indígenas teriam tentado
    levá-la de volta à aldeia sem autorização médica

A direção do hospital acionou o Conselho Tutelar que, diante das suspeitas de que a criança seria sacrificada por ser portadora de deficiência física, acionou o Ministério Público Estadual (MPE) pedindo a permanência da criança no hospital. Nesta quinta-feira (16), a juíza Carla Reis, da 2º Vara da Infância e da Juventude, concedeu pedido de providências ordenando que a menina fique onde está até que seu quadro clínico seja considerado satisfatório.

A decisão causou indignação do administrador regional da Funai em Manaus, Edgar Fernandes. "Ela (Justiça Estadual) não tem prerrogativa para julgar esse caso. Questões envolvendo índios têm de ser resolvidas na Justiça Federal. Vamos recorrer ao MPF (Ministério Público Federal) para interceder a favor da família", disse Edgar.

Para a diretora do hospital, Glória Chíxaro, o estado clínico da menina é estável, mas a interrupção de seu tratamento pode leva-la à morte. "O quadro dela, hoje, é estável, mas se for retirada do hospital, seu tratamento será seriamente comprometido e ela pode morrer na aldeia", disse completando que a menina será submetida a uma cirurgia para drenar o líquido de sua cabeça.

Edgar Fernandes discorda do entendimento da diretora e diz que o desejo dos pais da menina de levá-la para sua aldeia é legítimo e amparado pela Constituição Federal. "Os povos indígenas têm direito às suas próprias crenças. Os pais da menina não acreditam mais na medicina ocidental e querem que ela tenha os seus últimos dias na aldeia", explicou.

Para Fábio Menezes, conselheiro tutelar que acompanha o caso, retirar a menina do hospital é sentencia-la à morte. "Na cultura deles, quem tem deficiências deve ser sacrificado. Eles já disseram à Funai que irão fazer isso. A própria Funai já admitiu que isso pode acontecer", disse Menezes.

Grupo de discussão

Em casos de vida ou morte, Justiça deveria interferir em questões culturais?

Sobre o possível 'sacrifício' da índia, a Funai divulgou uma nota explicando que esse tipo de ritual faz parte da cultura da etnia ianomâmi. "Gerar um filho defeituoso, que não terá serventia numa aldeia que precisa necessariamente de gente sadia (...) é um grave 'pecado', pois este não poderá cumprir o seu destino ancestral", diz a nota.

Ainda de acordo com o documento, para evitar o transtorno de ter um integrante deficiente na aldeia, quando a criança nasce, a mãe realiza um cuidadoso exame e se constatar que a mesma é portadora de deformidade, a mesma é 'descartada'.

Fábio Menezes diz que, apesar da decisão da Justiça Estadual, vai tentar impedir que ela seja levada de volta à aldeia. "Vou tentar uma reanálise do caso. Ela não pode voltar pra lá", disse.

Polêmica sobre infanticídio indígena mistura leis, valores culturais e saúde

O infanticídio entre indígenas é um tema que já gerou documentários, projetos de leis e muita polêmica em torno de saúde pública, cultura, religião e legislação. Ainda utilizado por volta de 20 etnias entre as mais de 200 do Brasil, esse princípio tribal leva à morte não apenas gêmeos, mas também filhos de mães solteiras, crianças com problema mental ou físico, ou doença não identificada pela tribo

Para o antropólogo Ademir Ramos, o caso mostra, de forma emblemática, o choque entre as culturas indígenas e a ocidental. "O não índio não está discutindo hoje a eutanásia? Essa é uma questão já resolvida para os ianomâmis. Eles precisam de gente saudável na aldeia. Uma criança com deficiência gera uma série de transtornos aos integrantes da tribo", disse o antropólogo.

A juíza Carla Reis defendeu sua decisão ordenando a manutenção da menina no hospital. "Eu estou analisando apenas o fato de ela se tratar de uma criança. Não entrei no mérito de ela ser indígena ou não. Pra mim, ela é apenas uma criança", disse.

A magistrada admite, porém, que a Funai tem argumentos para recorrer de sua decisão. "Se eles quiserem, podem argumentar que a Justiça Estadual não tem autoridade para decidir em casos envolvendo índios. Vai depender deles", disse.

Uma reunião entre Conselho Tutelar, Funai e o Ministério Público Federal (MPF) está sendo realizada na noite desta quinta-feira. O MPF ainda não se manifestou sobre o caso.

25 de dez. de 2008

A religião incentiva o comportamento altruísta

AZIM SHARIFF

A religião incentiva o comportamento altruísta

Para psicólogo que trabalha sob óptica da evolução, crença em Deus promove ajuda mútua, mas só em certas condições

Marlene Bergamo - 14.ago.02/Folha Imagem

Uma mulher muçulmana e seu filho rezam durante cerimônia do Ano Novo muçulmano numa mesquita de Jacarta, na Indonésia

O GRANDE conflito opondo ideologias laicas e religiosas hoje está na biologia, com o movimento criacionista tentando impor às escolas o ensino de conceitos do Gênesis bíblico como alternativa à teoria de Darwin. Um grupo de psicólogos que trabalha numa frente menos conhecida, enquanto isso, cria controvérsia por outro motivo: eles tentam usar a evolução para explicar por que a religião surgiu. Segundo o canadense Azim Shariff, porém, é justamente porque ela promove o bem.

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL

Em parceira com o psicólogo Ara Norenzayam, Shrarif publicou neste ano um estudo na prestigiosa revista "Science".
Os dois defendem a teoria de que a religião surgiu em sociedades humanas arcaicas porque promove a cooperação dentro de grupos de pessoas.
Experimentos comportamentais, porém, mostram que isso ocorre mais apenas quando o ato altruísta contribui para a reputação das pessoas. Em entrevista à Folha Shariff falou sobre seu trabalho.

FOLHA - Best-sellers como os do jornalista Christopher Hitchens e do biólogo Richard Dawkins apontam a religião como fonte de conflito. Seus estudos, porém, indicam que a crença religiosa dá vantagem evolutiva a grupos humanos, porque incentiva a cooperação. O que acontece, então, é justamente o oposto?
AZIM SHARIFF
- Eu não diria que é o oposto. Hitchens e Dawkins estão adotando um ângulo uniformemente negativo sobre religião. Se você procura algo mais próximo da verdade, será mais equilibrado. Obviamente, não vai descobrir que a religião é uma coisa totalmente boa, da mesma forma que ela não é totalmente ruim. Nós mostramos que ela promove algum bem, mas apenas quando condições específicas são cumpridas.
Nossa pesquisa em geral causa reação de desapontamento tanto entre pessoas contra quanto a favor da religião, porque ela não diz que ela é má, como Hitchens, e não diz que a religião é boa, como aqueles que pregam suas religiões. Nós descobrimos, de fato, que a religião incentiva o comportamento pró-social, mas não pelas razões que as pessoas religiosas gostariam de acreditar.

FOLHA - Vocês citam estudos mostrando que o comportamento cooperativo, pró-social da religião, existe mais quando o altruísmo ajuda a melhorar a reputação da pessoa. Isso revela algo cínico ou egoísta?
SHARIFF
- Sim, mas as as razões conscientes que temos para nossas ações pró-sociais são muito limitadas. Não temos acesso total às nossas próprias motivações. As pesquisas das ciências cognitivas sobre moral apontam que normalmente agimos por motivos egoístas. Humanos são feitos assim.
Normas culturais não existem por motivos egoístas, mas são egoístas da perspectiva do grupo. Qualquer ação nossa é motivada em certa medida por auto-interesse. O fato de a religião cooptar esse auto-interesse não a torna pior do que qualquer outra motivação que tenhamos para fazer o bem.

FOLHA - Seu estudo dá a entender que a crença em um Deus moral e capaz de punir foi boa no passado porque ajudou sociedades com uma espécie de "vigilância" em prol da cooperação. É isso que aconteceu?
SHARIFF
- Sim, essa é a teoria que estamos trabalhando. Antigamente, nas sociedades humanas, quando não havia grandes sistemas judiciários, a vigilância era limitada. As pessoas tinham que monitorar a reputação de todas as outras, e era muito mais fácil para os trapaceiros evitarem ser pegos. O que a religião fez foi "terceirizar" toda essa vigilância para um ser onisciente, que poderia vigiar e punir todo mundo. A partir de então, as pessoas não trapaceariam, ou seriam incentivadas a não fazê-lo, porque não teriam como escapar de Deus da mesma forma que escondiam suas trapaças das pessoas comuns.

FOLHA - Como a psicologia evolutiva busca evidências para saber o que aconteceu no passado, já que não pode viajar no tempo para saber como as pessoas pensavam?
SHARIFF
- É verdade que as alegações em psicologia evolutiva são difíceis de comprovar. O que tentamos fazer é usar evidências de diversas outras áreas da ciência. Nós combinamos psicologia social experimental moderna com evidências antropológicas que analisam como os grupos desenvolveram crenças e rituais no passado, e se isso contribuiu para sua durabilidade.
Nós argumentamos que sociedades que adotam crenças em deuses poderosos costuma ser maiores, e duram mais, você precisa olhar para a história e ver se ela apóia essa tese. E ela suporta, porque você pode generalizar isso para todos os grupos ao longo do tempo. Um estudo que mencionamos é sobre comunidades laicas e religiosas nos EUA. Descobrimos que em comunidades religiosas, costuma durar mais do que as comunidades laicas.
Olhando o registro histórico, também vemos que grupos que enfrentaram desafios para estabelecer a colaboração próxima são mais propensos a adotar crença religiosa, o que facilita esse tipo de cooperação.

FOLHA - Cristianismo, islamismo e judaísmo cresceram por possuírem essas características?
SHARIFF
- Absolutamente, sim. Mesmo com a maioria das religiões do mundo não possuindo esses grandes agentes punitivos, as religiões que o possuem têm a maioria dos fiéis. Parte disso é pelo modo como elas funcionam. Há outras coisas sobre o cristianismo e o islamismo, é que são religiões profetizantes, com iniciativas de disseminação missionária que as permitem crescer mais rapidamente do que outras religiões. É um processo de evolução da religião. Hoje nos EUA partes do cristianismo estão mudando de acordo com as novas condições sociais em que se encontram.
Veja, por exemplo, o catolicismo, que sempre teve boa parte de sua sustentação em rituais, em um Deus particularmente rigoroso e no medo do inferno.
Essas coisas estão mudando na para coisas mais alegres e em um Deus mais amável. A razão para isso acontecer é que os deveres punitivos da religião não pertencem mais ela, devido aos grandes sistemas judiciais seculares que existem hoje. E com as religiões se tornando mais legais com as pessoas, seu poder de disseminação aumenta ainda mais.

FOLHA - Quando vocês explicam religião pela seleção natural, o que está sendo selecionado é o comportamento das pessoas ou as características genéticas que as tornam mais propensas à crença?
SHARIFF
- Eu não acredito que a seleção genética seja especialmente forte no que se refere à disseminação das religiões. O que acredito é que exista um processo de co-evolução entre genes e cultura. Inicialmente você tem seleção cultural nessas religiões. Alguns estudos argumentam que pessoas religiosas costumam ter mais filhos, mas eu não acredito que haja evidências suficientes favoráveis a isso ao longo da história.

FOLHA - Alguns sociólogos dizem que o cristianismo lançou as bases morais para o capitalismo. O consumismo desenfreado com presentes de Natal é hoje um sinal disso?
SHARIFF
- Li algumas coisas a esse respeito, mas nunca estudei religiões sob aspecto da economia de mercado. É claro que o Natal é um grande negócio. Se, de fato, ele estimula as pessoas a se tornarem mais ligadas a suas religiões, talvez elas fiquem mais generosas. As pessoas realmente dão presentes às outras no Natal, mas dizer quando isso ocorre por generosidade ou por uma cultura de comercialismo já é mais difícil.

FOLHA - Cientistas têm reagido vigorosamente à intromissão da religião no ensino de biologia, o criacionismo. Religiosos, em contrapartida, podem questionar aquilo que vocês estão fazendo: usar ciência da evolução para explicar a religião?
SHARIFF
- Sim. A idéia de olhar para a religião com uma óptica científica é uma coisa que deixa iradas muitas pessoas religiosas mais fundamentalistas. E o fato de estarmos usando para isso os processos darwinísticos, em particular, pode torná-las duplamente iradas. É compreensível que elas fiquem assim, mas isso faz parte do fato de que nós, psicólogos, tentamos explicar o comportamento humano para os humanos. É como se disséssemos "nós sabemos por que você está fazendo isso melhor do que você mesmo sabe". E o fato de que tratamos especificamente de religião certamente incomoda mais.
Tornar a religião um objeto das ciências naturais, não é uma coisa com a qual as pessoas religiosas se sentem confortáveis. Mas não podemos deixar isso nos afetar. Temos que tentar nos comprometer com a verdade o máximo possível. Não tentamos suavizar nossa linguagem, mas não temos uma agenda específica de ateísmo a cumprir.

FOLHA - Você tem recebido muitas cartas com ofensas?
SHARIFF
- Eu não diria que são muitas. Nós recebemos um bocado de reações negativas por parte de pessoas religiosas, mas muitas pessoas não-religiosas reagiram negativamente também. O que achei interessante foi a reação da mídia, que costuma descrever nosso estudo ou como totalmente pró-religião ou como totalmente contrário.

FOLHA - Como surgiu seu próprio interesse em psicologia da religião? Você é religioso ou nasceu eu uma família religiosa?
SHARIFF
- Fui educado como muçulmano, mas perdi meu interesse em religião quando era adolescente. Quando cursei a graduação é que meu interesse em religião ressurgiu. O que acho que foi bom, e que me permitiu permanecer mais neutro em relação ao assunto, é o fato de que eu não tive um interesse especial em religião antes. Eu não amava religião mas também não a desprezava.

FOLHA - Você acha que a religião serve como parte da explicação para os conflitos no Oriente Médio? Em seu estudo você diz que a religião favorece cooperação dentro de grupos mas não entre um grupo e outro?
SHARIFF
- O que acontece é que hoje esses grupos de pessoas acabam tendo contato um com outro muito mais freqüentemente. No passado, talvez uma pessoa só encontrasse alguém de uma religião diferente duas ou três vezes na vida. Mas hoje, especialmente em lugares religiosamente diversos como o Oriente Médio, isso ocorre muito mais, o que gera muito mais tensão.

5 de dez. de 2008

Como vejo o Mundo: Eistein

RELIGIÃO E CIÊNCIA (págs. 19, 20, 21 e 22)
Todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazer as necessidades dos homens e tra­zer lenitivo a suas dores. Recusar esta evidência é não compreender a vida do espírito e seu progresso. Por­que experimentar e desejar constituem os impulsos primários do ser, antes mesmo de considerar a majes­tosa criação desejada. Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no' sentido mais forte da palavra?
Descubro logo que as raízes da idéia e da experiência religiosa se revelam múltiplas. No primi­tivo, por exemplo, o temor suscita representações re­ligiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da his­tória da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inven­tar seres mais ou menos à sua imagem. Transfere pa­ra a vontade e o poder deles as experiências doloro­sas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres pela realiza­ção de ritos ou de sacrifícios. Porque a memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou.
A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermediário entre seres temíveis e o povo,.fundando assim sua he­gemonia. Com freqüência o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as funções sacerdotais. Ou então, entre a casta política dominante e a casta sacerdotal se esta­belece uma comunidade de interesses.

Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos fantasmas religiosos. Porque o pai, a mãe ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, são falíveis e mortais. Então a paixão do poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. Deus-Providência, ele preside ao des­tino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imagi­nação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sen­tido da religião vivida de acordo com o conceito so­cial ou moral de Deus.

Nas Sagradas Escrituras do povo judeu manifesta-se claramente a passagem de uma religião-angústia para uma religião-moral. As re­ligiões de todos os povos civilizados, particularmente dos povos orientais, se manifestam basicamente mo­rais. O progresso de um grau ao outro constitui a vida dos povos. Por isto desconfiamos do preconceito que define as religiões primitivas como religiões de angús­tia e as religiões dos povos civilizados como morais. Todas as simbioses existem mas a religião-moral pre­domina onde a vida social atinge um nível superior. Estes dois tipos de religião traduzem uma idéia de Deus pela imaginação do homem.

Somente indivíduos particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta' experiência religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pu­reza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmi­ca e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não correspon­de conceito algum de um Deus antropomórfico.

O ser experimenta o nada das aspirações e vonta­des humanas, descobre a ordem e a perfeição onde o mundo da natureza corresponde ao mundo do pensamento.
A existência individual é vivida então como uma espécie de prisão e o ser deseja provar a totali­dade do Ente como um todo perfeitamente inteligível. Notam-se exemplos desta religião cósmica nos primei­ros momentos da evolução em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas.
Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmos, que os maravilhosos textos de Schopenhauer' nos ensina­ram a decifrar. Ora, os gênios-religiosos de todos os tempos se distingüiram por esta religiosidade ante o cosmos.
Ela não tem dogmas nem Deus concebido à ­imagem. do homem, portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica.
Temos também a impressão de que ­os hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contu­do, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e às vezes, também, de santida­de. Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis, Spinoza se assemelham profundamente. ­
Como poderá comunicar-se de homem a homem esta religiosidade, uma vez que não pode chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais importante da arte e da ciên­cia consiste em despertar e manter desperto o senti­mento dela naqueles que lhe estão abertos. Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a religião de um modo totalmente diferente da concep­ção clássica. A interpretação histórica considera adversários irreconciliáveis ciência e religião, por uma razão fácil de ser percebida.
Aquele que está conven­cido de que a lei causal rege todo acontecimento não pode absolutamente encarar a idéia de um ser a inter­vir no processo cósmico, que lhe permita refletir se­riamente sobre a hipótese da causalidade. Não pode encontrar um lugar para um Deus-angústia, nem mes­mo para uma religião social ou moral: de modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem age segundo leis rigorosas internas e ex­ternas, que lhe proíbem rejeitar a responsabilidade so­bre a hipótese - Deus, do mesmo modo que um objeto inanimado é irresponsável por seus movimentos.
Por este motivo, a ciência foi acusada de prejudicar a mo­ral. Coisa absolutamente injustificável. E como o com­portamento moral do homem se fundamenta eficaz­mente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa. A condi­ção dos homens seria lastimável se tivessem de ser do­mados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
É portanto compreensível que as Igrejas tenham, em todos os tempos, combatido a Ciência e perseguido seus adeptos. Mas eu afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica. Somente aquele que pôde avaliar os gigantescos esforços e, antes de tudo, a paixão sem os quais as criações intelectuais cientí­ficas inovadoras não existiriam, pode pesar a força do sentimento, único a criar um trabalho totalmente desligado da vida prática.
Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vonta­de de compreender, nem que seja uma parcela minús­cula da inteligência a se desvendar no mundo, devia animar Kepler e Newton para que tenham podido ex­plicar os mecanismos da mecânica celeste, por um tra­balho solitário de muitos anos. Aquele que só conhece a pesquisa científica por seus efeitos práticos vê de­pressa demais e incompletamente a mentalidade de homens que, rodeados de contemporâneos céticos, in­dicaram caminhos aos indivíduos que pensavam como eles. Ora, eles estão dispersos no tempo e no espaço.
Aquele que devotou sua vida a idênticas finalidades é o único a possuir uma imaginação compreensiva des­tes homens, daquilo que os anima, lhes insufla a força de conservar seu ideal, apesar de inúmeros malogros.
A religiosidade cósmica prodigaliza tais forças.Um contemporâneo declarava, não sem razão, que em nossa época, instalada no materialismo, reconhece-se nos sábios escrupulosamente honestos os únicos espí­ritos profundamente religiosos.

16 de out. de 2008

Ateísmo radical e outros

Pietro Bergamo

Sinceramente, acho que toda essa polêmica é mais um jeito dos polemistas ganharem destaque do que algo realmente sério. Quanto ao Dawkins, ele parece estar se dando muito bem com isso, mas não me sinto muito inclinado a ler seu livro. Não vejo nenhum grande mérito em refutar as "provas" de São Tomás ou de Santo Anselmo, já que as contradições e pressupostos ocultos nos textos já foram amplamente estudadas na história da filosofia, até o ponto em que Kant afirmou ser impossível a metafísica como ciência. Ou seja, religião não é assunto para a razão.

De dentro de meus limitados conhecimentos filosóficos, acho essa disputa entre ciência e religião uma baboseira, mais ou menos como ficar brigando porque feijão é mais comida que goiabada. Por mais que a ciência tente, não será capaz jamais de refutar com argumentos empíricos e probabilísticos a "existência" de Deus, pois Ele, se "existir", está além disso. O relativo não pode negar o absoluto, mesmo que ele não "exista". Isso, porém, não torna a ciência inútil, pois é através dela que aprendemos a lidar com o mundo empírico em todos os níveis, desde o físico até o psicológico. Aliás, é a utilidade que pauta a maior parte da ciência.

É preciso tomar o cuidado de analisar o que qualquer um dos lados toma como base de sua argumentação, e se essa base é realmente sólida. Crer que a ciência possa revelar verdades me parece contraditório. Acho que poderíamos ganhar muito se estivéssemos abertos a ver a beleza tanto da ciência como da religião.

17 de mai. de 2008

Carta que revela desdém de Einstein por religião vai a leilão

Carta de Einstein
Einstein escreveu a carta um ano antes de morr
Uma carta escrita pelo físico Albert Einstein ao filósofo alemão Eric Gutkind e que veio à tona recentemente revela que o cientista desdenhava a religião.

A carta foi escrita em 1954, um ano antes da morte de Einstein, em resposta ao livro de Gutkind Escolha a vida: O chamado bíblico para a revolta (em tradução livre), e passou os últimos 50 anos nas mãos de um colecionador particular.

Nesta quinta-feira, o documento será leiloado pela casa de leilões Bloomsbury Auctions, em Londres. A expectativa é que ela alcance entre 6 mil e 8 mil libras.

“A palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis”, escreve Einstein que, apesar de judeu, freqüentou uma escola católica na infância.

O cientista, que recebia aulas particulares de judaísmo em casa, declinou o convite do então recém-formado Estado de Israel para ser o segundo presidente do país.

Na carta, ele também fala que não acredita que os judeus sejam o “povo escolhido”.

“Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é a encarnação de algumas das superstições mais infantis. E o povo judeu, ao qual tenho o prazer de pertencer e com cuja mentalidade tenho grande afinidade, não tem qualquer diferença de qualidade para mim em relação aos outros povos.”

“Até onde vai minha experiência, eles não são melhores que nenhum outro grupo de humanos, apesar de estarem protegidos dos piores cânceres por falta de poder. Mas além disso, não consigo ver nada de ‘escolhido’ sobre eles”.

A carta levanta nova polêmica sobre as crenças religiosas de Einstein já que, em declarações anteriores, o cientista havia dado a entender que acreditava, ou pelo menos queria acreditar, na existência de Deus.

Segundo o jornal britânico The Guardian, a carta e seu conteúdo eram desconhecidos por alguns dos principais biógrafos do cientista.

Em carta inédita, Albert Einstein ataca Deus

18/05/2008
da Associated Press

Uma carta inédita de Albert Einstein datada de 1954, ano anterior ao de sua morte, traz pela primeira vez críticas contundentes do físico à religião. No manuscrito dirigido a seu amigo filósofo Eric Gutkind, que será leiloada hoje em Londres, o autor das teorias da relatividade retrata as práticas religiosas como "infantis".

"A palavra Deus é para mim nada mais do que expressão e produto da fraqueza humana", escreveu Einstein, para quem a Bíblia seria "uma coleção de lendas honráveis, ainda que primitivas".

O conteúdo da carta difere de declarações anteriores de Einstein, que, segundo historiadores, nunca havia deixado muito clara a sua visão sobre a religião. Nessa seara, o físico era mais lembrado pela frase "A ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega".

Na carta a Gutkind, porém, Einstein classifica a crença em Deus como "produto da fraqueza humana", e não poupa nem a religião do povo ao qual pertencia. "A religião judaica, como todas as outras religiões, é uma encarnação das superstições mais infantis." Einstein, um sionista que teve papel importante na criação do Estado de Israel, diz a Gutkind que não acredita que os judeus sejam um povo "escolhido".

A carta traz um certo tom de descrença na humanidade e a noção de que o poder corrompe as pessoas. Os judeus, diz, só estariam "protegidos dos piores cânceres por lhes faltar poder".

A casa de leilões Bloomsbury, onde o manuscrito original será vendido, diz estar "100% certa" da autenticidade do documento e que espera conseguir por ele um preço entre US$ 12 mil e US$ 16 mil. O vendedor é um colecionador particular.

Historiadores não costumam retratar Einstein com ateu, mas a imagem pode mudar com a publicação da carta. Sua visão sobre Deus era tida apenas como não-clerical ("Não creio no Deus da teologia que recompensa o bem e pune o mal").

15 de mai. de 2008

Em carta inédita, Einstein ataca Deus

São Paulo, quinta-feira, 15 de maio de 2008



São Paulo, quinta-feira, 15 de maio de 2008



Em carta inédita, Einstein ataca Deus No manuscrito, leiloado hoje em Londres, físico diz que religião é "infantil" e nega que judeus sejam povo "escolhido"

Correspondência enviada a amigo filósofo um ano antes da morte do físico contrasta com tom tolerante expresso em declarações anteriores


Arquivo/Associated Press




O físico Albert Einstein


DA ASSOCIATED PRESS Uma carta inédita de Albert Einstein datada de 1954, ano anterior ao de sua morte, traz pela primeira vez críticas contundentes do físico à religião. No manuscrito dirigido a seu amigo filósofo Eric Gutkind, que será leiloada hoje em Londres, o autor das teorias da relatividade retrata as práticas religiosas como "infantis".

"A palavra Deus é para mim nada mais do que expressão e produto da fraqueza humana", escreveu Einstein, para quem a Bíblia seria "uma coleção de lendas honráveis, ainda que primitivas".

O conteúdo da carta difere de declarações anteriores de Einstein, que, segundo historiadores, nunca havia deixado muito clara a sua visão sobre a religião. Nessa seara, o físico era mais lembrado pela frase "A ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega".

Na carta a Gutkind, porém, Einstein classifica a crença em Deus como "produto da fraqueza humana", e não poupa nem a religião do povo ao qual pertencia. "A religião judaica, como todas as outras religiões, é uma encarnação das superstições mais infantis." Einstein, um sionista que teve papel importante na criação do Estado de Israel, diz a Gutkind que não acredita que os judeus sejam um povo "escolhido".

A carta traz um certo tom de descrença na humanidade e a noção de que o poder corrompe as pessoas. Os judeus, diz, só estariam "protegidos dos piores cânceres por lhes faltar poder".

A casa de leilões Bloomsbury, onde o manuscrito original será vendido, diz estar "100% certa" da autenticidade do documento e que espera conseguir por ele um preço entre US$ 12 mil e US$ 16 mil. O vendedor é um colecionador particular.

Historiadores não costumam retratar Einstein com ateu, mas a imagem pode mudar com a publicação da carta. Sua visão sobre Deus era tida apenas como não-clerical ("Não creio no Deus da teologia que recompensa o bem e pune o mal").

3 de jan. de 2008

Deuses, Religiões, Fé e Reunião de Kensan

"Em relação aos deuses, religiões, ideologias e fé, deixa-se na liberdade de cada um, e as críticas a respeito destes problemas, acontecem de serem levantadas nas reuniões de kensan. Para mim, eu acho que está resolvido. Mas como Associação, sobre todos os assuntos juntamos os conhecimentos de todos, examinamos bem, descobrimos o máximo, o melhor e final, levamos isto à prática e esperamos a realização da sociedade ideal, não sendo esta uma reunião de aperfeiçoamento pessoal, nem religioso. É um corpo de ação social, da prática da razão verdadeira, em que de maneira filosófica e realística, agimos procurando mutuamente a razão verdadeira e os métodos e os levamos à prática, em vez de promover ensinos."

"Já que pessoas especiais, deuses ou budas, não estão entre os companheiros, sem acreditar cegamente em determinadas pessoas e sem se submeter nem bajular, sem ser algo como o ouvir sermão de pessoas eminentes, expõe-se mutuamente o que cada um tem, juntos examinamos bem por si mesmos, e descobrindo o ponto em consenso leva-se à prática. Fazem sugestões, mas não existe ninguém que dá ordens por vontade individual. Ao se juntar a inteligência dos seres humanos, mesmo que não haja alguém absoluto ou figuras simbólicas com pseudônimo de deus ou buda, é possível fazer da vida humana uma verdadeira felicidade."

.




30 de dez. de 2007

17. 0 Deus de Einstein


Praia de Santa Bárbara, 1933
Certa noite em Berlim, Einstein e a mulher estavam num jantar quando um convidado expressou sua crença na astrologia. Einstein ridicularizou a idéia como superstição pura. Outro convidado entrou na conversa e passou a insultar a religião. A crença em Deus, insistiu ele, e uma espécie de ficção, também.

Nesse ponto, o anfitrião tentou calá-lo mencionando o fato de que até Einstein nutria crenças religiosas. “Não é possível!", disse o convidado cético, virando-se para Einstein a fim de perguntar se ele era, de fato, religioso.

“Sim, pode-se dizer que sim", respondeu Einstein calmamente. Tente penetrar, com nossos limitados meios, nos segredos da natureza, e descobrirá por trás de todas as leis e conexões discerníveis, permanece algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração por essa força além de qualquer coisa que podemos compreender é a minha religião. Nesse sentido eu sou, de fato, religioso."

Quando criança, Einstein passou por uma fase de êxtase religioso; depois se rebelou contra ela. Nas três décadas seguintes, em geral não se pronunciava muito sobre esse tópico. Mas, ao chegar aos cinqüenta anos, começou a articular com mais clareza - em vários ensaios, entrevistas e cartas - sua apreciação cada vez mais profunda da sua herança judaica e, em separado, sua crença em Deus, embora se tratasse de um conceito bastante impessoal e deista de Deus.

Decerto, havia muitas razões para isso, alem da propensão natural, que costuma ocorrer por volta dos cinqüenta anos, para refletir sobre a eternidade. A afinidade que ele sentia por outros judeus, em virtude da continua opressão anti-semita, despertou alguns de seus sentimentos religiosos. Mas, ao que tudo in­dica, as convicções dele provinham sobretudo do sentimento de deslumbramento com a ordem transcendental que descobriu por meio de seu trabalho científico.

Seja apreciando a beleza de suas equações sobre o campo gravitacional, seja rejeitando a incerteza da mecânica quântica, Einstein demonstrava profunda fé na ordem do universo. Foi o que serviu de base para sua visão cientifica e também para sua visão religiosa. "A mais elevada satisfação de um cientista", escreveu ele em 1929, e chegar a compreensão "de que o próprio Deus não poderia ter organizado essas conexões de nenhuma outra maneira a não ser da maneira que realmente existe, assim como não estaria em Seu poder fazer com que 4 fosse um numero primo."

Para Einstein, como para a maioria das pessoas, a crença em algo maior que ele mesmo se tomou um sentimento definidor. Produzia nele uma mistura de confiança e humildade, com um toque de doce simplicidade. Dada sua pré-disposição para ser autocentrado, essas eram graças positivas. Juntamente com seu senso de humor e sua autoconsciência que beirava a timidez, essas qualidades ajudaram a evitar a presunção e o pedantismo que poderiam ter se apossado da mente mais famosa do mundo.


Seus sentimentos religiosos de deslumbramento perante o universo e também humildade formaram a base do seu senso de justiça social. Esta o levava detestar as pompas da hierarquia e da distinção de classes, a fugir do consumo e do materialismo, e a se esforçar em prol dos refugiados e dos oprimidos.­


Pouco depois de completar cinqüenta anos, Einstein deu uma notável entrevista ­em que revelou mais sobre o seu pensamento religioso do que jamais fizera. A entrevista foi concedida a um poeta e propagandista, pomposo porem adulador. chamado George Sylvester Viereck. Nascido na Alemanha, Viereck emigrou para os Estados Unidos quando criança e passou o resto da vida escrevendo poemas de um erotismo exuberante, entrevistando grandes homens e expressando seu complexo amor por sua pátria.


Depois de conseguir entrevistar celebridades que iam desde Freud ate Hit­ler e o Kaiser, posteriormente publicado num livro intitulado Visões de grandes homens, ele conseguiu marcar uma conversa com Einstein em seu apartamento em Berlim. Lá, Elsa serviu-lhe suco de framboesa e salada de frutas; Os dois homens então subiram para o escritório de eremita de Einstein. Por razões que não ficaram bem claras, Einstein supôs que Viereck fosse judeu. Na verdade, Viereck tinha orgulho de descender da família do Kaiser; mais tarde, tornou-se simpatizante do nazismo e foi preso nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra por fazer propaganda a favor da Alemanha.


Viereck começou indagando a Einstein se ele se considerava alemão ou judeu. "E possível ser as duas coisas", respondeu Einstein. "O nacionalismo e uma doença infantil, o sarampo da humanidade."


Os judeus deveriam tentar se assimilar? "Nos, judeus, temos procurado com demasiado empenho sacrificar nossas idiossincrasias a fim de nos conformarmos com a norma."
Até que ponto o senhor é influenciado pelo cristianismo? "Quando criança, recebi instrução tanto sobre a Bíblia como sobre o Talmude. Sou judeu, mas sou fascinado pela luminosa figura do Nazareno."


O senhor aceita a existência histórica de Jesus? "Sem duvida! Quem pode ler os Evangelhos sem sentir a presença real de Jesus? Sua personalidade pulsa em cada palavra. Não há nenhum mito que esteja imbuído de tanta vida."
O senhor acredita em Deus?

Não sou ateu. O problema aí envolvido é demasiado vasto para nossas mentes limitadas. Estamos na mesma situação de uma criancinha que entra numa biblioteca repleta de livros em muitas línguas. A criança a sabe que alguém deve ter escrito esses livros. Ela não sabe de que maneira, nem compreende os idiomas em que foram escritos. A criança tem uma forte suspeita de que há uma ordem misteriosa na organização dos livros, mas não sabe qual é essa ordem. E essa, parece-me, a atitude do ser humano, mesmo do mais inteligente, em relação a Deus. Vemos um universo maravilhosamente organizado e que obedece a certas leis; mas compreendemos essas leis apenas muito vagamente.

Seria esse um conceito judaico de Deus? "Sou determinista. Não acredito no livre-arbítrio. Os judeus acreditam no livre-arbítrio. Eles acreditam que cada homem faz sua própria vida. Eu rejeito essa doutrina. Nesse aspecto, não sou judeu."


Será esse o Deus de Espinosa? "Sou fascinado pelo panteísmo de Espinosa, mas admiro ainda mais sua contribuição para o pensamento moderno, pois ele foi o primeiro filósofo a lidar com o corpo e a alma como uma só entidade, e não como duas coisas separadas."


Como chegou às suas idéias? "Sou artista o suficiente para inspirar-me livremente na minha imaginação. A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação abrange o mundo inteiro."


O senhor acredita na imortalidade? "Não. E uma vida e suficiente para mim."


Einstein tentou expressar esses sentimentos claramente, tanto para si mesmo como para todos aqueles que desejavam obter dele uma resposta simples acerca da sua fé. Assim, no verão de 1930, entre seus passeios de barco e suas reflexões em Caputh, escreveu um credo, "No que acredito". Concluía com uma explicação sobre o que tinha em mente quando dizia ser religioso:

A emoção mais bela que podemos experimentar é o sentimento do mistério. E a emoção fundamental que esta no berço de toda a verdadeira arte e ciência. Aquele que desconhece essa emoção, aquele que não consegue mais se maravilhar, ficar arrebatado pela admiração, é como se estivesse morto; e uma vela que foi apagada. Sentir que por trás de qualquer coisa que possa ser experimentada ha algo que nossa mente não consegue captar, algo cuja beleza e solenidade nos atinge apenas indiretamente: essa é a religiosidade. Nesse sentido, e apenas nesse senti­do, sou devotamente religioso.'

Considerado evocativo, ate inspirador, pelo publico, 0 texto foi reimpresso repetidas vezes e traduzido para as mais diversas línguas. Mesmo assim -.o que não é de surpreender -, não satisfez os que desejavam uma resposta simples e direta a pergunta: "O senhor acredita em Deus?". Assim, tentar levar Einstein a responder a essa pergunta de modo conciso passou a substituir o frenesi anterior de tentar leva-lo a explicar a relatividade numa só frase.


Um banqueiro do Colorado escreveu-lhe dizendo que já conseguira obter respostas de 24 ganhadores do premio Nobel a pergunta "O senhor acredita em Deus?", e pedia a Einstein que também respondesse. "Não consigo conceber um Deus pessoal que tenha influencia direta nas ações dos indivíduos ou que julgue as criaturas da sua própria criação", rabiscou Einstein em resposta. "Minha religiosidade consiste numa humilde admiração pelo espírito infinitamente superior que se revela no pouco que conseguimos compreender sobre o mundo passível de ser conhecido. Essa convicção profundamente emocional da presença de um poder superior racional que se revela nesse universo incompreensível for­ma a minha idéia de Deus."


Uma menina da sexta serie de uma escola dominical de Nova York fez a pergunta de uma forma ligeiramente diferente. "Os cientistas rezam?", indagou ela. Einstein levou-a a serio. “A pesquisa cientifica baseia-se na idéia de que tudo o que acontece e determinado por leis da natureza, e isso também vale para as ações das pessoas", explicou. "Por esse motivo, um cientista não se sentiria inclinado a acreditar que os fatos podem ser influenciados por uma oração, isto é, por um desejo dirigido a um Ser sobrenatural."


Isso não significava, contudo, que não existisse nenhum ser Todo-Poderoso, nenhum espírito maior que nos mesmos. Ele continuou a explicar a garota: "Qualquer pessoa que se envolve seriamente no trabalho cientifico acaba convencida de que existe um espírito que se manifesta nas leis do universo – um espírito vastamente superior ao espírito humano, em face do qual nos, com nos­sos modestos poderes, temos de nos sentir humildes. Desse modo, a pesquisa cientifica leva a um sentimento religioso bem especial, que e, de fato, muito diferente da religiosidade de urna pessoa mais ingênua".'


Para alguns, apenas uma crença bem clara num Deus pessoal, que controla nossa vida diária, serviria como resposta satisfatória, e as idéias de Einstein sobre um espírito cósmico impessoal, assim como suas teorias da relatividade, mereciam ser desmascaradas. "Duvido seriamente que 0 próprio Einstein saiba aonde quer chegar", disse William Henry O'Connell, cardeal de Boston. Mas uma coisa parecia clara: era algo sem Deus. "0 resultado de todas essas duvidas e especulações nebulosas acerca do tempo e do espaço e um manto sob o qual se esconde o fantasma assustador do ateísmo."


Esse ataque público de um cardeal motivou o rabino Herbert S. Goldstein, destacado líder dos judeus ortodoxos de Nova York, a enviar um telegrama bastante direto: "O senhor acredita em Deus? Ponto. Resposta paga. 50 palavras". Einstein usou apenas a metade desse numero para escrever 0 que se tornou a versão mais famosa de uma resposta que ele deu muitas vezes:

“Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia bem-ordenada de tudo o que existe; mas não acredito num Deus que se ocupe com o destino e as ações da humanidade".


A resposta de Einstein não foi confortadora para todos. Alguns judeus reli­giosos, por exemplo, observaram que Espinosa fora excomungado da comunidade judaica de Amsterdã em razão dessas convicções, e também fora condena­,­ do pela Igreja Católica, por garantia. "O cardeal O'Connell teria feito bem em não atacar a teoria de Einstein", disse um rabino do Bronx. “E Einstein teria feito melhor em não proclamar sua descrença num Deus que se ocupa com o destino e as ações dos indivíduos. Os dois deram opiniões sobre áreas fora da sua jurisdição”.

Mesmo assim, a maioria das pessoas ficou satisfeita, concordasse plenamente ou não, pois conseguia compreender o que ele queria dizer. A idéia de um Deus impessoal, cuja mão se reflete na gloria da Criação mas que não se imiscui na vida diária do ser humano, faz parte de uma respeitável tradição tanto na Europa como nos Estados Unidos. Ela se encontra em alguns dos filósofos prediletos de Einstein e, de modo geral, está de acordo com as convicções religiosas de muitos dos fundadores dos Estados Unidos, como Jefferson e Franklin.


Alguns crentes religiosos descartam as freqüentes invocações feitas por Einstein de Deus como mera figura de linguagem. O mesmo fazem alguns não­ crentes. Havia muitas expressões que ele usava, algumas jocosas, que iam desde der Herrgott (O senhor Deus) até der Alte (O Velho). Mas não era do estilo de Einstein falar de modo insincero a fim de parecer que estava se conformando a norma; muito pelo contrario. Assim, nós deveríamos lhe dar a honra de levarmos a sério suas palavras quando ele insiste, repetidas vezes, que essas expressões tão batidas não eram uma evasiva sutil, uma maneira semântica de disfarçar o fato de que ele era, na verdade, ateu.


A vida toda Einstein foi coerente ao rebater a acusação de ser ateu. "Ha pessoas que dizem que não existe Deus", disse ele a um amigo. "Mas o que me deixa mais zangado e que elas citam meu nome para apoiar essas idéias."


Diferentemente de Sigmund Freud ou Bertrand Russell ou George Bernard Shaw, Einstein nunca sentiu 0 impulso de denegrir os que acreditam em Deus; em vez disso, costumava denegrir os ateus. "0 que me separa da maioria dos chamados ateus e um sentimento de total humildade com os segredos inatingíveis da harmonia do cosmos", explicou ele.'


De fato, Einstein costumava ser mais critico em relação aos que ridicularizavam a religião, e que pareciam carecer de humildade e do senso de deslumbramento, do que em relação aos fieis. "Os ateus fanáticos", explicou ele numa carta, "são como escravos que continuam sentindo o peso das correntes que jogaram fora depois de muita luta. São criaturas que - em seu rancor contra a religião tradicional como sendo o ópio das massas' - não conseguem ouvir a musica das esferas."


Einstein mais tarde se envolveu numa troca de idéias sobre esse tópico com um guarda-marinha das forças navais americanas a quem não conhecia pessoal­mente. Era verdade, indagou o marinheiro, que Einstein fora convertido por um padre jesuíta e passara a acreditar em Deus? Absurdo, respondeu Einstein. Continuou dizendo que via a crença num Deus que era uma figura paternal como resultado de "analogias infantis". será que Einstein lhe permitiria, perguntou o marinheiro, dar a resposta dele em seus debates com os colegas do navio que eram mais religiosos? Einstein advertiu-o de que não simplificasse em demasia. ''Você pode me chamar de agnóstico, mas eu não compartilho daquele espírito de cruzada do ateu profissional, cujo fervor se deve mais a um doloroso ate de libertação dos grilhões da doutrinação religiosa recebida na juventude", explicou. "Prefiro a atitude de humildade que corresponde a debilidade da nossa compreensão intelectual da natureza e do nosso próprio ser".


De que modo esse instinto religioso se relacionava a sua ciência? Para Einstein, a beleza da sua fé consistia no fato de que ela era a essência e a inspiração do seu trabalho cientifico, e não algo que entrasse em conflito com este. "O sentimento religioso cósmico", disse ele, "é o motivo mais forte e mais nobre da pesquisa cientifica."


Einstein mais tarde explicou como via a relação entre ciência e religião nu­ma conferencia sobre esse tópico no Seminário Teológico Unionista, em Nova York. O reino da ciência, disse, consiste em descobrir com exatidão o que acontece, mas não em avaliar os pensamentos e as ações humanas sobre o que deve­ria acontecer. A religião tem o mandato inverso. E, no entanto, esses dois tipos de esforços por vezes atuam juntos. “A ciência só pode ser criada pelos que es­tão totalmente imbuídos pela aspiração a verdade e a compreensão", disse ele. "Contudo, esse sentimento brota da esfera da religião."


Essa fala saiu na primeira pagina dos jornais, e a conclusão de Einstein, saborosa e concisa, ganhou fama: “A situação pode ser expressa por uma imagem: a ciência sem religião é manca; a religião sem ciência e cega".


Mas havia um conceito religioso, prosseguiu Einstein, que a ciência não ia aceitar: uma divindade capaz de se imiscuir a seu bel-prazer nos acontecimentos da sua criação ou na vida das suas criaturas. “A causa principal dos atuais conflitos entre as esferas da religião e da ciência consiste nesse conceito de um Deus pessoal", argumentou ele. Os cientistas buscam revelar as leis imutáveis que governam a realidade e, ao faze-lo, tem de rejeitar a noção de que a vontade divina, é, alias, também a vontade humana, desempenha um papel que violaria ­ essa causalidade cósmica.


Essa crença no determinismo causal, inerente a visão cientifica de Einstein, entrava em conflito não só com o conceito de um Deus pessoal. Era ainda, ao menos na mente de Einstein, incompatível com o livre-arbítrio humano. Embora fosse um homem profundamente moral, por sua crença no determinismo estrito julgava difícil aceitar a idéia da escolha moral e da responsabilidade individual que se encontra no cerne da maioria dos sistemas éticos.
Os teólogos judeus, bem como os teólogos cristãos, de maneira geral sempre­ acreditaram que as pessoas tem livre-arbítrio e são responsáveis por seus Elas tem até a liberdade, como narra a Bíblia, de optar por desafiar os mandamentos de Deus, embora isso pareça entrar em conflito com a crença de que e onisciente e todo-poderoso.


Einstein, por outro lado, acreditava, como Espinosa, que as ações de uma pessoa eram predeterminadas, assim como as de uma bola de bilhar, um planeta ou uma estrela. "Os seres humanos, em seus pensamentos, sentimentos e atos, são livres, mas estão presos pela causalidade do mesmo modo que as estrela em seus movimentos", afirmou Einstein em 1932, numa declaração a Sociedade ­Espinosa.


As ações humanas são determinadas, para lá do seu controle, tanto por leis como por leis psicológicas, acreditava. Tal conceito ele extraiu também mas leituras de Schopenhauer, a quem atribuiu, no credo de 1930, "No que acredito", uma máxima deste teor:

Não acredito, em absoluto, no livre-arbítrio no sentido filosófico. Cada pessoa age não só sob pressão das compulsões externas, mas também de acordo com as necessidades internas. O dito de Schopenhauer: "Um homem pode fazer o que deseja, mas não pode mandar nos seus desejos” têm sido uma verdadeira inspiração para mim desde a juventude; e um consolo contínuo ante as dificuldades da vida, tanto minhas como alheias, e uma fonte infalível de tolerância.”

O senhor acredita, perguntaram certa vez a Einstein, que o ser humano é um agente livre? "Não, sou determinista", respondeu ele. “Tudo já está deter­minado, tanto o inicio como 0 fim, por forças sobre as quais não temos nenhum controle. Tudo está determinado, tanto para o inseto como para a estrela. Seres humanos, vegetais, poeira cósmica, todos nos dançamos conforme uma música misteriosa, entoada a distancia por um músico invisível."
Essa atitude deixava consternados alguns amigos, como Max Born, o qual julgava que ela destruía por completo os alicerces da moralidade humana. "Não consigo compreender como você pode combinar um universo inteiramente mecanicista com a liberdade do individuo ético", escreveu ele a Einstein. "Para mim, um mundo determinista e absolutamente abominável. Talvez você tenha razão e o mundo seja, de fato, como você diz. Mas, no momento, ele não pare­ce ser assim na física - muito menos no resto do mundo."


Para Born, a incerteza da física quântica oferece uma saída para esse dilema. Do mesmo modo que alguns filósofos da época, ele se apegou a indeterminação inerente a mecânica quântica para resolver- "a discrepância entre a liberdade ética e as leis naturais estritas". Einstein reconheceu que a mecânica quântica questionava o determinismo estrito, mas disse a Born que continuava acreditando neste, tanto na área das açõs pessoais como na física.


Born explicou a questão a sua nervosa mulher, Hedwig, sempre ansiosa pa­ra discutir as idéias de Einstein. Ela disse a Einstein que, assim como ele, também era "incapaz de acreditar num Deus que joga dados"'. Noutras palavras “diferentemente do marido, ela rejeitava a visão da mecânica quântica de que o universo se baseia em incertezas e probabilidades”. Mas, acrescentou Hedwig. “tampouco consigo imaginar que o senhor acredite - como me disse Max­ - que o seu conceito do ‘predomínio absoluto das leis’ significa que tudo é predeterminado -, por exemplo, se eu VOU ou não VOU mandar vacinar meus filhos-.­ Isso significaria, ressaltou ela, o fim de toda a ética”.


Na filosofia de Einstein, a forma de resolver essa questão era considerado livre-arbítrio algo útil, e ate necessário, para uma sociedade civilizada, pois levava as pessoas a assumir a responsabilidade por seus atos. Agir como se cada um fosse responsável por seus atos teria o efeito, tanto psicológico como pratico, de estimular as pessoas a agir de maneira mais responsável. "Sou compelido a agir como se existisse o livre-arbítrio", explicou ele, "já que, se desejo viver numa sociedade civilizada, devo agir de modo responsável." Podia ate responsabilizar as pessoas por suas boas e mas ações, já que essa é uma abordagem pragmática e sensata para a vida; 'mas ao mesmo tempo continuava a acreditar intelectual­mente que as ações de cada um são predeterminadas. "Sei que, filosoficamente, um assassino não é responsável por seu crime", disse, "mas prefiro não tomar chá com ele."


Em defesa de Einstein, bem como de Max e Hedwig Born, deve-se notar que os filósofos, em todas as épocas, sempre lutaram, as vezes de maneira ca­nhestra e sem grande sucesso, para reconciliar o livre-arbítrio com o determinismo e com um Deus onisciente. Se Einstein teve maior ou menor habilidade que outros ao lidar com esse nó, há um fato notório que deve ser observado: ele foi capaz de desenvolver e praticar uma forte moralidade pessoal, ao menos em relação a humanidade em geral ainda que nem sempre em relação a membros da sua família, que não foi prejudicada por todas essas especulações filosóficas insolúveis. "O empreendimento humano mais importante e a luta pela moralidade em nossas ações", escreveu ele a um ministro protestante do Brooklyn. "Nosso equilíbrio interno e até nossa própria existência dependem disso. Só a moralidade em nossas ações pode dar beleza e dignidade a vida: o alicerce dessa moralidade, acreditava ele, consistia em elevar-se acima do "meramente pessoal" e viver de uma forma que beneficiasse a humanidade.


Em certas ocasiões, era capaz de ser insensível com os mais próximos, o que mostra que, como o restante de nós, seres humanos, de também tinha suas falhas. Porém, mais que a maioria das pessoas, dedicou-se sinceramente, e por vezes corajosamente, a ações que transcendiam os desejos egoístas, a fim de incentivar o progresso humano e a preservação das liberdades individuais.


Era, de modo geral, um homem generoso, de gênio bom, gentil e despretensioso. Em 1922, quando partiu para Japão com Elsa, aconselhou as filhas dela sobre co­mo levar uma vida moral. "Usem pouco para vocês mesmas", disse, "mas dêem muito aos outros."

4 de nov. de 2007

Não existe "o por quê?" na ciência

Exsite na ciência, um senso de que pode-se questionar o " como ? ", mas não poderia questionar o " porquê ? ".
Diz-se porque ela cai facilmente na teorização do objetivo.
Por exemplo: - Se questionar "Por quê a maçã cai da árvore ?" , a resposta seria - "Porque o seu objetivo é que a o fruto ao cair, rache e o passaro propague o semente".
De certo com esta forma de questionamento, talvez nem Nexton teria descoberto a sua "teoria de gravitacinal".
De modo geral, na ciência, frequentemente deve explicar o resultado através da causa.
De outro modo, se nos intentara isso, é até possível explicar como se exsitissem vontades até mesmo nos seres inanimados.

umados possuem vontades..... .

同様に生命も何かの「ため」に進化しているのではない。(進化という言葉自体が議論の余地あるが)

 しかし、巨大な力をもった科学はもはや単独では存続できず、哲学、倫理学、環境学からの要請を避けては通れないのである。

 結果としての科学理論の説明(式)に目的論は極力持ち込まない方がいいが、科学の研究プロセスに目的を持ち込んでもかまわないのだ。

その場合でも、問いの立て方というのがある。

例えば、「人はなぜ道徳的でなければならないか?」という問いには古来から哲学者達により議論されてきたが、哲学的論争は今持って際限がない。

しかし、「人はなぜ道徳的になければならないと<思う>のか?」と問うと、これによって、問題を心理学の研究分野の変換できる。

さらに、「人はなぜ道徳的でなければならにと思うように<できている>のかと問えば、自然科学で扱える問題になる。

「HOWで答えられるようなWHYの問い方」というのが重要なのである。

こうすることによって、自然科学の知識を持った我々は、ソクラテスやカントのように堂々巡りに陥ることなく、彼らを軽々と超えることができるのです。


こうした問いの変換ができるかできないかは、

ヴィトゲンシュタイン>その通りさ。僕が哲学は終わったと言ったのはそう言う意味なのだよ。


ソフィー>ところで、クォークはなぜあるの?

ゲルマン>それだけは訊いてくれるな。量子論の栄光の歴史の最大のウィークポイントだからね。

25 de ago. de 2007

Autor paga o preço de sua honestidade intelectual

Análise 2

Autor paga o preço de sua honestidade intelectual

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Tive o desprazer de conversar com Richard Dawkins apenas duas vezes na vida. É um sujeito antipático, pedante e de uma intolerância insuportável. Exatamente o oposto da personalidade que se espera encontrar em alguém cuja profissão de (ops!) fé é levar a ciência ao grande público. E que é, goste-se ou não dele, um dos intelectuais mais brilhantes que a seleção natural já produziu.

Talvez essa certeza de superioridade, que transborda nos escritos do biólogo britânico, explique em parte por que Dawkins é tão vilipendiado pelos ditos intelectuais "de esquerda" e "culturalistas", para não falar nos (credo!) pós-modernos. Essa patota não hesita em pichá-lo de darwinista bitolado que não consegue enxergar nada além de genes egoístas tramando a destruição do livre-arbítrio humano.

São poucos, no entanto, os que terão notado a seguinte passagem no clássico dos clássicos de Dawkins, "O Gene Egoísta", de 1976: "Para compreender a evolução do homem moderno, nós devemos começar jogando fora o gene como a única base das nossas idéias sobre a evolução". Os que notaram talvez a tenham creditado a um erro de edição. Ou, na obsessão por afastar o cálice da biologia dos lábios sacrossantos do comportamento humano, resolveram simplesmente varrê-la para baixo do tapete e seguir atirando no mensageiro.

Dawkins tem pago o preço de sua honestidade intelectual desde então. "O Gene Egoísta" foi publicado apenas um ano depois de o também zoólogo Edward Osborne Wilson, de Harvard, ter despertado a fúria da "ciência marxista" (acredite, isso já existiu) com a publicação de "Sociobiologia", a primeira obra a dizer com todas as letras (e sem muito tato) que o comportamento humano poderia ser explicado pela seleção natural darwinista.

Embora hoje isso seja óbvio em certa medida -dado que o comportamento é produto do cérebro e o cérebro é objeto de seleção natural-, Wilson foi chamado de porco nazista.
Ao dar munição à sociobiologia com suas idéias sobre genética, Dawkins também virou alvo. O máximo expoente da "biologia dialética", Richard Lewontin, chegou a deturpar uma passagem de "O Gene Egoísta". Onde Dawkins dizia "eles [os genes] nos criaram, corpo e mente", Lewontin enxertou "eles nos controlam, corpo e mente". Até hoje não se desculpou por isso.

Com "Deus, um Delírio", o zoólogo britânico volta a atrair detratores, de ambas as extremidades do espectro político, de todas as cores e -principalmente- credos. Seu único crime terá sido meter a mão num vespeiro (a religião) para o qual os cientistas têm insistido em dar as costas, enquanto dele esvoaçam sem cessar fanáticos do calibre de Osama Bin Laden e George W. Bush. Dawkins esnoba os críticos. Ele sabe que o "meme" darwinista triunfa, e que a luz já foi lançada sobre o mistério da existência humana.

Ultradarwinismo chique de Dawkins explica tudo e nada de uma só vez

Análise 1

Ultradarwinismo chique de Dawkins explica tudo e nada de uma só vez MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

A sina de ultradarwinistas como Richard Dawkins é ter de explicar tudo com base na seleção natural, inclusive os moinhos de vento com que topa a ciência natural de grife em sua incursão pela árida paisagem intelectual contemporânea. Mesmo quando se propõem a desfazer miragens, vêem-se na obrigação de explicar antes como tamanho desvio da objetividade pôde escapar ao escrutínio da evolução.

Dawkins, ao investir contra a religião, submete-a a um rebaixamento duplo. Primeiro, recusa-lhe a condição de produto da cultura, seguindo o velho raciocínio sociobiológico (reciclado pela psicologia evolucionista) de que todo comportamento resulta da ação pretérita da seleção natural. Se existe, é porque no passado remoto da espécie conferiu algum diferencial de sobrevivência aos portadores dos genes para tal comportamento.

Em seguida, especula que se trate na realidade de um subproduto, fruto do mau funcionamento de um módulo cerebral selecionado para cumprir outra função. No caso da religião, uma espécie de desvario da tendência humana para atribuir intenções aos outros seres que povoam o mundo.

Imaginar que um tigre está mal-intencionado a seu respeito tem valor de sobrevivência, argumenta Dawkins. Aumenta suas chances de legar à próxima geração os genes que o levaram a acreditar numa consciência tigrina, algo empiricamente incorreto. Se os humanos estão predispostos a enxergar fantasmas dentro de tudo, fica mais fácil entender sua tendência universal a imaginar um fantasma-mor acima de tudo.

Não há uma seqüência lógica entre uma coisa e outra, entre a intencionalidade de "dentro" e a de "fora". Dawkins sobrepõe o que se chama de teoria da mente a uma tendência humana inata para o dualismo, conceber corpos separados de espíritos. Mas esse é só o prisma através do qual ele enxerga a questão, quando é plausível pensar de modo alternativo e encarar as péssimas intenções do tigre como algo indissociável de suas listas e dos olhos de fogo.

O biólogo ganharia em perspectiva se lesse também a obra do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, mas já seria pedir demais. O próprio Dawkins reconhece (na pág. 183 da edição americana da Houghton Mifflin) que o nexo entre intencionalidade e dualismo é precário, e renuncia a aprofundar a matéria.

Há outras objeções possíveis contra o esquema de Dawkins. Uma digna de nota é tomar o monoteísmo, aparentemente, como tipo ideal para representar a miríade de fenômenos que se entende por "religião". Imperícia socioantropológica desculpável em um biólogo -se não estivesse empenhado em dar uma solução final ao problema da religião.

Dawkins tampouco tem explicação darwinista forte para essa infinita variação de religiões. Compara sua multiplicidade à proliferação aleatória de "memes", o análogo de genes na esfera da cultura, ao estilo da deriva genética (aumento da freqüência, numa população, de variantes que não conferem nem retiram vantagens para a sobrevivência). Cristianismo e islamismo, vistos de tal ângulo, seriam igualmente frutos de desenvolvimentos aleatórios.

É com efeito espantoso o poder explicativo do ultradarwinismo chique, em sua incursão pela árida paisagem intelectual contemporânea. Talvez explique a predileção desmesurada das casas editoras por autores como Dawkins, Steven Pinker e James Watson.

A ciência contra Deus

Livros

A ciência contra Deus

Corajoso e furibundo, "Deus, um Delírio", de Richard Dawkins, traz forte argumentação em favor do ateísmo, critica a irracionalidade e diz que religiões são nocivas ao bem-estar humano

No livro, cientista britânico utiliza argumentos evolucionistas e considera a existência de Deus uma grande improbabilidade

MARCELO COELHO
COLUNISTA DA FOLHA

Sacerdotes e cientistas mantiveram, durante um bom tempo, certas normas de convivência pacífica: salvo as exceções mais radicais, um não se metia com os assuntos do outro. Hipocrisia, afirma o biólogo Richard Dawkins no corajoso e furibundo "Deus, um Delírio".

Dawkins inicia sua forte argumentação em favor do ateísmo assinalando que a maior parte dos cientistas, inclusive o físico alemão Albert Einstein (1879-1955), cuidava de fazer vagas profissões de fé deístas apenas para não chocar os espíritos religiosos. Acreditar num "Deus que não joga dados", como formulado na famosa frase de Einstein, equivale muito mais a confiar nas regularidades das leis da natureza do que a afirmar qualquer coisa próxima de uma religião.

Acontece que os esforços no sentido de separar ciência e fé, Estado laico e convicção religiosa, foram sendo solapados ultimamente. Nos Estados Unidos, ganha especial virulência a campanha contra o darwinismo, levada por fundamentalistas bíblicos e adeptos da teoria do design inteligente.

Entre os muçulmanos, quaisquer críticas à religião encontram as respostas que se conhecem -e Dawkins faz um relato aterrorizante das reações suscitadas, mesmo entre grupos não-fundamentalistas, pelas célebres charges sobre Maomé inicialmente publicadas por um jornal dinamarquês. Do lado católico, o papa Bento 16 está longe de se mostrar tímido e conformado com o papel da razão iluminista nas sociedades ocidentais.

Verdade que o próprio darwinismo procura conquistar novas áreas de influência, seja na prática (com o desenvolvimento das pesquisas sobre o genoma), seja na teoria (descobrindo razões biológicas para muito do que se acreditava pertencer à ordem da psicanálise ou da cultura).

Grito de guerra
O livro de Dawkins surge nesse contexto como uma espécie de grito de guerra, de chamado à mobilização geral. Basta, diz ele, de respeitar um conjunto de crenças que não é apenas improvável, como profundamente tolo e nocivo ao bem-estar humano. Basta de "respeitar" a irracionalidade alheia. Os ateus esconderam-se tempo demais nas catacumbas. Perseguidos, estigmatizados, envergonhados, cabe-lhes assumir a iniciativa do debate intelectual.

Não é suficiente para Dawkins que se declarem "agnósticos" -e, na discussão desse termo, localiza-se talvez o ponto mais incisivo e original de sua argumentação. Um agnóstico, explica o autor, considera impossível responder se Deus existe ou não. Seja porque não surgiram até hoje provas convincentes de sua existência, seja porque essas provas seriam a rigor impossíveis de obter.

Improbabilidades
Com efeito, pelo menos desde Kant (1724-1804), uma série de supostas "provas racionais" da existência de Deus mostrou-se incapaz de resistir a um exame rigoroso; Dawkins dedica um capítulo de seu livro a um sumário e feroz resumo desses debates.

A posição agnóstica não basta, contudo, para Dawkins. O cientista agnóstico se contenta em deixar a questão sobre a existência de Deus no campo das coisas que não lhe dizem respeito. "Deus, um delírio" apresenta um argumento destinado a lançar a existência de Deus no campo das improbabilidades quase absolutas.

Um dos argumentos preferidos pelos criacionistas é o de que o acaso, por si só, não seria capaz de produzir coisas tão complexas quanto um olho humano ou a asa de uma borboleta. O surgimento de tais maravilhas a partir do acaso seria tão improvável, dizem os criacionistas, quanto imaginar que um furacão, passando por cima de um ferro-velho, montasse peça por peça um Boeing 747.

Dawkins refuta a tese de modo convincente. Asas de borboleta e olhos humanos não surgem "prontos" na natureza, a partir de uma combinação aleatória de moléculas. Os darwinistas não acreditam que tais coisas nasceram por acaso, e sim da seleção natural. Mostram como organismos complexos evoluíram, pouco a pouco, a partir de formas de vida muito simples. E isso, diz o autor, é muito mais provável do que imaginar um "criador inteligente". Pois para projetar um Boeing é preciso ser um bocado mais complexo do que um Boeing. E, para repetir uma objeção clássica à idéia de Deus, fica a pergunta: "Quem teria criado o criador?" Um outro ser, ainda mais complexo do que ele?

Com boa variedade de exemplos e clareza expositiva, "Deus, um delírio" teria tudo para fazer a alegria de espíritos céticos ou ateus, como o deste resenhista. Mas o que sobra a Dawkins de inteligência científica parece lhe faltar de inteligência emocional. Há mais exasperação do que ironia, mais precipitação do que serenidade, no modo com que ele encaminha a discussão. Dawkins consegue chocar profundamente, com piadas brutais, algumas sensibilidades religiosas, sem ganhar a simpatia dos que concordam com seu ponto de vista.

Foi-se o tempo em que filósofos descrentes podiam brincar, com superioridade anglo-saxônica, a respeito de crendices religiosas. As diversas citações de Bertrand Russell, de H. L. Mencken e mesmo de Woody Allen, que volta e meia aparecem em "Deus, um Delírio", são como que deliciosos remanescentes de outra era geológica, em que a ciência não se sentia tão acuada e perseguida. Criticava-se com verve e paz de espírito; este panfleto evolucionista, embora sólido cientificamente, parece debater-se e gesticular como uma fera aprisionada em sua jaula. Mas vale a pena ouvir seus urros: neles está, ai de nós, a voz da Razão.


DEUS, UM DELÍRIO
Autor:
Richard Dawkins
Tradução: Fernanda Ravagnani
Editora: Companhias das Letras
Quanto: R$ 54 (528 págs.)
Avaliação: bom

21 de jul. de 2007

Em "God Is Not Great", ateísmo de ensaísta vira nova religião

JOÃO PEREIRA COUTINHOCOLUNISTA DA FOLHA

O que seria de nós sem Deus? A pergunta é antiga, a urgência é recente: no dia 11 de setembro de 2001, as Torres Gêmeas desabavam perante os olhos incrédulos do mundo. E entre os responsáveis pelo massacre, Deus também estava na lista. Se a religião não existisse, o fanatismo jamais teria voado até Nova York. A religião destrói tudo.

A história da religião é a história da desgraça humana.Christopher Hitchens acredita que sim, em "God Is Not Great". Esclarecimento: gosto de Hitchens e há vários anos que acompanho o bicho. Não é fácil: são duas dezenas de livros e incontáveis colunas para incontáveis publicações de elite (da "New Statesman" à "Vanity Fair", da "Slate" ao "TLS").Depois de Mencken e Gore Vidal, Hitchens tem a raríssima qualidade de conciliar profundidade teórica com um destrutivo e impressivo sentido de humor. Irresistível, não?Sem dúvida.

Irresistível mas falível, sobretudo quando a profundidade não acompanha o humor. Acontece com "God Is Not Great", que provoca riso e frustração em qualquer leitor informado. O riso está na iconoclastia de Hitchens (Maomé era epilético? Jesus morreu pelos pecados dos homens mas ressuscitou ao terceiro dia?), uma iconoclastia que procura mostrar duas coisas: primeiro, que a existência de Deus é uma impossibilidade; e, segundo, que as religiões organizadas são uma malignidade.

A frustração está na natureza pouco convincente dos argumentos.Para Hitchens, a existência de Deus é uma impossibilidade pela razão bem simples de que foram os homens a criar o divino, e não o contrário.Basta olhar em volta: como conciliar a idéia de um criador perfeito com o estado imperfeito do mundo?Na verdade, um mundo imperfeito não é incompatível com um criador perfeito se a liberdade humana é, simultaneamente, uma dádiva e um princípio de indeterminação.

Se Hitchens tivesse lido santo Agostinho, saberia disso.E sobre um Deus criado pela imaginação humana, a tese, que é uma repetição do trio maravilha (Feuerbach, Marx, Freud), não passa de uma profissão de fé, impossível de prova racional. Não é preciso ser crente para subscrever o truísmo: é impossível provar a existência, ou a inexistência, de Deus.Verdade que o objetivo de Hitchens não é apenas esse.

A existência de Deus é um pormenor quando existem homens que matam em Seu nome. Matam em Belfast. Em Beirut. Em Belgrado. Em Belém. Em Bagdá. E apenas para ficarmos pela letra "B", como diz Hitchens com típico humor.Infelizmente, e uma vez mais, o humor não basta. Não basta porque não é possível condenar toda a religião organizada tendo em conta as suas expressões mais extremas.

Porque tudo pode ser perigoso quando levado ao extremo: a fé; a raça; a nação; o amor; o futebol; a estupidez. Além disso, os problemas que Hitchens traz na sua lista "B" não são apenas explicáveis pela religião. Só um ingênuo acredita, por exemplo, que o problema israelo-palestino é uma contenta religiosa entre extremistas. A história, a política e as ideologias que sacudiram o Oriente Médio (desde, pelo menos, a queda do Império Otomano) tiveram uma palavra maior.

Soluções? Para começar, Hitchens não aceita a objeção esperada de que os regimes que aboliram a religião acabaram por descer a níveis impensáveis de desumanidade. Desde logo porque, para o autor, esses regimes não aboliram a religião; apenas a transmutaram numa ideologia servida por capacidade tecnológica letal.

Ainda que isso fosse verdade (não é), esse seria um argumento a favor da manutenção de uma religião tradicional (como Burke, no século 18, ou Tocqueville, no século 19, ou Aron, já no século 20, sublinharam). A religião tradicional é conhecida. A transmutação gera o desconhecido.Para terminar, Hitchens lança um convite para um novo "iluminismo", capaz de dispensar a religião e alimentar a alma humana com arte e literatura.

É uma boa proposta, sem dúvida, mas talvez fosse interessante saber que tipo de arte e literatura Hitchens aconselha aos novos iluminados. Razão simples: a história da arte no Ocidente é indissociável da herança judaico-cristã que a contaminou. Eu, pessoalmente, só vejo um caminho: lançar na fogueira todas as obras que transportem resquícios religiosos.

Porque esse é o problema do panfleto de Hitchens: preocupado em derrubar a religião, o seu ateísmo converte-se numa nova forma de religião. Dogmática, intolerante. E, como em todos os extremismos, capaz de conceder a Deus uma importância de vida ou morte. Sobretudo a um Deus em que não se acredita. É a suprema ironia.

Dawkins e Hitchens guiam ateístas

Biólogo norte-americano e polemista ensaísta britânico levam argumentos ceticistas a extremos e viram best-sellers

Para Marcelo Gleiser, "novos ateístas" não representam comunidade científica e colecionam inimigos pela arrogância
23.jan.04/France Presse


"Graças ao telescópio e ao microscópio, a religião não oferece mais explicações para nada importante", diz Christopher Hitchens em "God Is Not Great" (leia resenha abaixo).O polemista britânico, conhecido agitador político de direita, conhece hoje, por conta de suas provocações à religião, um sucesso nunca antes alcançado por seus mais de 20 livros e inúmeros ensaios publicados em jornais e revistas.Apenas uma semana após o lançamento, no Reino Unido, Hitchens já havia vendido 4.000 cópias do livro.

Seis semanas depois, ele estava em sua sétima impressão e desembarcava nos EUA com loas da crítica e curiosidade geral."Eu já tinha criticado o uso nocivo da religião quando escrevi o livro sobre Madre Teresa de Calcutá", disse Hitchens à Folha. "Agora, faço um ataque geral à religião, pois ela é uma má influência."O argumento principal de "God Is Not Great" é que a religião serviu ao homem como explicação do mundo quando a ciência não existia. Depois disso, não só teria se tornado inútil como passado a ser um entrave para o conhecimento.

Com ironia e pegadinhas retóricas, Hitchens lança desafios: "Se Deus é o criador de todas as coisas, por que devemos celebrá-lo incessantemente por fazer algo que para ele é tão natural?". Também acusa tanto o islamismo como o cristianismo de impedirem que avanços da ciência ajudem a sanar feridas do Terceiro Mundo. Os extremistas islâmicos, por resistir a receber ajuda dos países ricos, achando que a medicina ocidental faz parte do projeto de dominação capitalista dos EUA, e a Igreja Católica, ao condenar milhões à morte por ser contra o aborto e o uso da camisinha, baseada em dogmas irracionais.

O ensaísta se refere ao papa Bento 16 como "reacionário medíocre".Hitchens pega carona no sucesso de Richard Dawkins, cujo "Deus, um Delírio", que chega aqui em agosto, vendeu meio milhão de exemplares nos EUA e mais de 300 mil no Reino Unido. Biólogo especializado na teoria da evolução, Dawkins diz que a intenção de seu livro é convencer as pessoas de que devem libertar-se totalmente desse "vício" que é a religião e acrescenta que Deus é homofóbico, racista, genocida, entre outros atributos nada afáveis.

Para o biólogo, Deus não poderia ser uma divindade, pois um ser tão complexo e superior ao homem só poderia ter surgido bem depois deste, como conseqüência da evolução, e não antes de todas as coisas, contrariando a teoria de Charles Darwin (1809-1882).Em "Quebrando o Encanto", o filósofo norte-americano Daniel Dennett faz uso do darwinismo para analisar a religião como produto da evolução humana, e não como força de raízes sobrenaturais.

Em entrevista à Folha, Dennett disse que espera que as pessoas aprendam a discutir e a investigar a religião de um modo mais natural e científico -e está otimista. "É preciso que deixemos de evitar tópicos que podem ofender os devotos. E acho que cada vez mais há pessoas religiosas que querem discutir suas crenças com céticos e cientistas." Dennett defende uma revolução no modo como se estuda religião aos moldes da que Alfred Kinsey (1895-1956) provocou com relação ao sexo nos anos 40.

No BrasilAs prateleiras das livrarias brasileiras já estão cheias de recentes títulos ateístas. O best-seller do filósofo francês Michel Onfray, "Tratado de Ateologia", acaba de sair pela Martins Fontes, enquanto "O Livro Negro do Cristianismo - Dois Mil Anos de Crimes em Nome de Deus", de Jacopo Fo, Sergio Tomat e Laura Malucelli, chega agora pela Ediouro.Plínio Junqueira Smith, doutor em filosofia pela USP, participa de um grupo de discussões sobre o ceticismo, formado na Unicamp. "Nossa preocupação é tentar compreender a história do ceticismo e fazer a reflexão sistemática sobre questões céticas atuais", disse.

Smith organizou "Ensaios sobre Ceticismo", coleção de artigos sobre o tema, e fez o prefácio de "Ateísmo e Revolta", de Paulo Jonas de Lima Piva, uma análise do pensamento do padre ateu Jean Meslier, que viveu no século 17. Ambos os livros saem agora pela editora Alameda.

ConfusãoPara o colunista da Folha Marcelo Gleiser, o grupo de "novos ateístas" está causando uma "grande confusão". "Estão exacerbando as já arraigadas posições anticientíficas dos mais religiosos e criando novos inimigos devido à arrogância."Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College (EUA), acha perigoso que eles sejam vistos como porta-vozes da comunidade científica. "Não é verdade. Do ponto de vista da ciência, a posição de ateu radical não faz sentido. Para se afirmar que Deus não existe, é necessário supor que detemos a totalidade do conhecimento, algo que é inatingível pelo fato de a ciência ser uma criação humana e limitada.

"Para ele, o máximo que cientistas podem dizer é que "a existência de um Deus judaico-cristão é contrária ao que conhecemos do mundo". Por outro lado, "não podemos afirmar que a informação atual da ausência de uma divindade é definitiva pois não temos informação sobre tudo. A única posição consistente com a ciência é o agnosticismo ou, no máximo, um ateísmo liberal, pronto a aceitar evidência em contrário, caso ela ocorra". (SYLVIA COLOMBO e MARCOS STRECKER)

18 de fev. de 2007

O instinto da fé

O instinto da fé

O biólogo Richard Dawkins volta a atacar as crenças em "A Ilusão de Deus" e compara a religiosidade na Europa e nos EUA


CLIVE COOKSON

Richard Dawkins parece um típico professor em sua antiga bicicleta com cestinha de vime, numa ruela que sai da Oxford High Street. Ele encosta a bicicleta no prédio decrépito do século 17 que abriga o restaurante Chiang Mai Kitchen e me encontra lá dentro para almoçar.
Dawkins, o atual (e primeiro) professor da cátedra Charles Simonyi de Compreensão Pública da Ciência, em Oxford, pode ser um ateu militante e a grande celebridade da biociência no Reino Unido, mas, após 36 anos no corpo docente da universidade, sua maneira de conversar é inconfundivelmente civilizada e acadêmica. Não há nada da arrogância estridente ou irritação que os críticos às vezes detectam nas participações de Dawkins na TV e em alguns de seus livros.
Ele também não demonstra falsa modéstia. Nós nos encontramos pouco antes da publicação de "The God Delusion" [A Ilusão de Deus, ed. Houghton Mifflin, 416 págs., US$ 27, R$ 58], seu ataque a todas as formas de religião, brilhantemente argumentado. Afirma que ficou contente ao encontrar o livro em segundo lugar na lista dos mais vendidos no Reino Unido. O reconhecimento e a influência são importantes para Dawkins: ele deixa clara sua reprovação a artigos anônimos nos jornais.

Prazer de escrever
A comida dificilmente nos distrai de assuntos de maior peso. Apesar de Dawkins ter escolhido o restaurante porque "adora comida tailandesa", ele pouco se interessa pelo menu e rapidamente aceita minha sugestão de uma massa e dois pratos de arroz com lagostins, carne e pato. Enquanto esperamos pela refeição, Dawkins me conta o quanto gosta de escrever. "A Ilusão de Deus" lhe deu muito menos trabalho que o anterior, "The Ancestor's Tale" [A História do Ancestral], ele diz.
Essa foi uma grande obra de biologia evolucionista que ele levou cinco anos para escrever, com um assistente de pesquisa em tempo integral, no qual remonta a ancestralidade da vida do homem moderno aos primeiros micróbios, 4 bilhões de anos atrás. Dawkins extrai grande prazer das etapas finais da escrita. "Gosto das fases de acabamento, de refinamento, mais que da tela em branco no início", diz. "Faço muitos cortes e edições -é gratificante encontrar algo que eu possa cortar sem perder a cadência do trecho."
Ele não é o tipo de autor que manda o original para um grande número de amigos e colegas lerem antes de apresentá-lo à sua editora. "Escrever por comitê geralmente torna o livro chato", ele diz. "Mas acho que uma ou duas almas muito compatíveis podem ser críticos extremamente úteis, um segundo olhar." A principal auxiliar na escrita de Dawkins é sua mulher, a atriz Lalla Ward, "que lê o livro inteiro em voz alta para mim em diferentes estágios do desenvolvimento. Escutar minhas próprias palavras com outra voz é muito revelador. Se ela tiver dificuldade para encontrar a ênfase certa, sei que preciso modificar alguma coisa".
Quando três tigelas fumegantes aparecem à nossa frente, com ervas e especiarias perfumadas, pergunto a Dawkins que tipo de resposta ele espera de "A Ilusão de Deus" e seu prelúdio televisivo, o documentário em duas partes feito por ele, "Root of All Evil?" [A Raiz de Todo o Mal?], que causou furor depois de sua transmissão pelo Channel 4. "Não quero apenas incomodar as pessoas -quero mudar suas mentes", ele diz.
Em seus momentos mais otimistas, Dawkins imagina que "os leitores que começarem o livro religiosos serão ateus quando o terminarem". Em tom mais realista, admite: "Não vou mudar as mentes de muitos carolas empedernidos". Ele acredita que exista "um campo intermediário de pessoas de mentalidade aberta que se declaram vagamente da Igreja Anglicana, mas que não pensaram realmente a fundo", pessoas que ele espera convencer a "libertar-se totalmente do vício da religião".

Um mundo sem deuses
No mínimo, ele espera transformar os agnósticos em completos ateus. Embora Dawkins acredite que o mundo seria um lugar melhor e mais pacífico sem deuses, tenho a impressão de que seu ataque é mais motivado pela repulsa intelectual diante das irracionalidades da religião. Mas Dawkins não assumiu uma tarefa que, como biólogo evolucionista, ele deveria admitir que é impossível? A superstição e a crença na magia e na religião dominaram todas as culturas humanas conhecidas, como ele sabe muito bem.
Embora isso não queira dizer que deva existir alguma forma de Deus (ou deuses), implica que a evolução nos dotou de um instinto religioso extremamente forte -que as campanhas racionais provavelmente não conseguirão extinguir. Quando digo isso a Dawkins, ele retruca que estou sendo derrotista (apesar de eu não ter dito diretamente, ele supõe que eu também seja ateu).
"A religião foi erradicada em mim e em muitos de meus amigos", ele diz, transferindo fartas colheradas de comida tailandesa para seu prato. "Existe uma forte correlação entre religião e educação: quanto mais educadas, menos religiosas são as pessoas." Por que então os EUA são tão mais religiosos que as sociedades européias, com um nível semelhante de educação e riqueza? Dawkins não alega compreender o "nível realmente extraordinário de religiosidade dos EUA", mas oferece algumas explicações especulativas.
Uma delas é que os EUA são uma sociedade de imigrantes que foram afastados de suas origens -e que acabaram por recorrer às igrejas para preencher o vazio. Nenhum de nós se convence muito.
A idéia seguinte é que a separação constitucional entre Igreja e Estado favoreceu a religião americana. "Na Europa Ocidental, a religião estabelecida é música de fundo e não é levada a sério", ele diz. "Nos Estados Unidos a religião tornou-se iniciativa privada, com todos os benefícios da publicidade e do marketing pesado." Achamos que pode haver certa razão nisso, mas então Dawkins pergunta: "Que tal uma teoria de "massa crítica'?".
Ele sugere que os EUA têm uma massa crítica de pessoas religiosas que se incentivam mutuamente a proclamar sua fé, enquanto "na Europa as pessoas que são religiosas tentam escondê-lo em ambientes sociais. Em um jantar elegante em Londres ou Oxford as pessoas não confessariam [ser religiosas], mas um jantar elegante em Dallas ou San Antonio poderia começar com uma oração de graças".
Nossa discussão deixa sem solução o mistério dos EUA. Depois de pedirmos chá verde, sugiro que uma civilização ultra-avançada poderia ter progredido em um longo período de evolução darwiniana a um nível tecnológico que superasse a compreensão humana. Como uma inteligência capaz de criar novos universos, por exemplo, diferiria de Deus? Dawkins concorda que, na prática, uma inteligência tão avançada poderia ser indistinguível de uma deidade. Mas o ponto-chave seria a maneira como ela teria surgido em etapas evolucionárias.
Dawkins não deseja abordar a questão existencial definitiva -por que as coisas existem-, mas comenta que é de uma "ordem de magnitude mais difícil compreender por que uma inteligência criadora complexa simplesmente teria surgido do que compreender por que ocorreu um "big bang'".

Projetos futuros
Agora terminamos o chá, chega a conta e Dawkins diz que precisa sair logo para outro encontro. Então me volto para seu futuro. "A Ilusão de Deus" é "provavelmente o apogeu" de sua guerra contra a religião, ele diz, mas continuará em campanha contra idéias irracionais. Um veículo será outro programa em dois capítulos para o Channel 4, provisoriamente intitulado "The Rational Inquirer" [O Investigador Racional], que examinará a telepatia e outros fenômenos paranormais. Ele também irá trabalhar numa antologia para a Oxford University Press, "que eu gostaria que fosse uma vitrina dos mais belos textos de cientistas sobre um tema científico".
Mas Dawkins diz que ainda não decidiu sobre outro projeto realmente ambicioso na escala de suas obras sobre biologia evolucionista e religião. Uma preocupação é a rápida aproximação de sua aposentadoria acadêmica. Dawkins parece um saudável cinqüentão, mas na verdade tem 65 anos, dois a menos que a idade em que Oxford faz seus professores abandonarem as cátedras.
Dawkins não é contrário à aposentadoria acadêmica compulsória. "Se eu tivesse 20 anos e procurasse um emprego acadêmico, ficaria um pouco chateado se os professores pudessem continuar para sempre", diz. "Eu pensaria que a melhor solução seria a aposentadoria compulsória, seguida de um convite voluntário para voltar." "Todos conhecemos pessoas nas universidades que são maravilhosamente valiosas aos 70, acrescenta, apreciando o assunto. "Toda universidade deveria ter um fundo para trazer de volta pessoas desse tipo. Na verdade seria uma ótima idéia para um mecenas bilionário criar um fundo para velhinhos brilhantes."

Best-seller científico
Atualmente, um professor aposentado pode receber o título de professor emérito e um escritório, mas pouco ou nenhum pagamento. Por um momento, imagino um Dawkins mais velho e empobrecido. Então, recordo que os rendimentos de 30 anos de best-sellers científicos devem lhe proporcionar uma aposentadoria bastante confortável -afinal, seu elegante paletó grafite e sua bela camisa estão muitos graus acima de uma típica vestimenta acadêmica.
Durante nosso encontro, Dawkins foi cortês e eficiente, cônscio de que no tempo disponível eu provavelmente só conseguiria abordar uma fração dos assuntos que eu queria discutir. Quando ele não tinha uma opinião meritória, como sobre o financiamento público da ciência, o dizia. Ele é uma companhia interessante, mas permanece ligeiramente reservado, e não acho que nos encontraremos novamente para um "tête-à-tête". Quando Dawkins sai pedalando, minha tristeza nostálgica é apenas em parte devida à luz do outono.